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OS INTELECTUAIS DO IHGP E A HISTÓRIA ENSINADA NO PARÁ REPUBLICANO (1900-1920)
Wanessa Carla Rodrigues Cardoso
Dnt. História - PPHIST/UFPA

Tratar da constituição da História como saber no Pará, nas primeiras décadas do século XX, é remeter-se inevitavelmente ao Instituto Histórico e Geográfico do Pará como lugar de memória, considerando-o locus agregador da intelectualidade local, e como lugar de pesquisa, elaboração, sistematização e divulgação de uma História regional na Primeira República no Pará.
O Instituto Histórico e Geográfico do Pará foi fundado inicialmente em 1900, e refundado em 1917. Sua refundação em 1917 foi parte integrante de um conjunto de ações planejadas por um grupo de intelectuais, o chamado comitê patriótico, para a comemoração do tricentenário da fundação da cidade de Belém, entre eles estavam Theodoro Braga, Américo Santa Rosa, Palma Muniz e Ignácio de Moura, com grande adesão da intelectualidade local, inclusive entre aqueles que já figuravam como sócio fundador em 1900, como Hygino Amanajás. 
Saudada por intelectuais e políticos paraenses, em sua grande maioria republicanos históricos, logo essa agremiação serviu na afirmação do ideário civilizacional republicano, preocupação esta que é possível observar nas suas revistas (RIHGP), lócus privilegiado de divulgação das ideias da intelectualidade local. 
Esses intelectuais, que transitavam entre os mais diversos campos e saberes, tinham no IHGP um lugar de sociabilidade privilegiado para pensar e produzir a História da Amazônia e do Brasil, necessários a constituição de uma identidade nacional, e de uma nação que caminhasse rumo ao progresso. Preocupados com uma educação cívico-patriótica, esses intelectuais se engajaram no projeto político republicano de construção de uma nacionalidade, em que a História Pátria ganhou lugar fundamental em suas ações, seja como político, historiador, divulgador e educador (CARDOSO, 2013).
A escola republicana era uma das vias principais de transmissão desses valores, preocupados com a formação moral e cívica da população, e na formação do cidadão verdadeiramente republicano e patriótico. A disciplina História viria, assim como o ensino da Geografia, responder a essa necessidade. Dentre seus vários objetivos: formar o cidadão brasileiro e patriota, e aproximar a nação cada vez mais dos padrões de “civilização”.
 A História acadêmica e escolar, que começa a se delinear no Brasil em torno de duas principais instituições, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e o Imperial Colégio de D. Pedro II, já nasce sob a tutela do Estado e com o intuito de servir à nacionalidade
A representação coletiva da História nacional se realiza por meio de um projeto orientado e dirigido para a construção de identidade da nação. Desse modo, era imprescindível criar um conhecimento histórico no qual a nação fosse associada as ideias de progresso e modernidade, e se reconhecesse como tal (GOMES, 2009; 2010).
Esse saber construído, portanto, recortado, selecionado com base em perspectivas nacionalistas, enfatizava a construção de uma memória positiva da nação, de um passado glorioso, como vias de garantir a unidade, a grandeza, e progresso nacional. Nesse aspecto, verificamos a vinculação clara entre os conteúdos de História, direcionados pelo Estado, e os projetos nacionalistas, cuja apresentação na literatura didática se fez sob o signo da memória histórica.
Ao lado do reconhecimento do valor da História, pelo Estado e pela intelectualidade, como um saber importante para a sociedade como um todo, vieram as preocupações na divulgação deste conhecimento, através de ações do Estado no plano da legislação, de festejos cívicos patrióticos, e da elaboração de livros e manuais didáticos e sua inserção na educação formal (BITTENCOURT, 2004; 2011).
Diversos intelectuais do Instituto Histórico e Geográfico do Pará estiveram ocupados na elaboração de manuais didáticos no Pará republicano, produzindo livros de História Pátria, Geografia Pátria e Língua Pátria, entre eles podemos destacar, Arthur Vianna, Vilhena Alves, Paulino de Brito, Virgílio Cardoso de Oliveira, Ignácio Moura, Raymundo Cyriaco Alves da Cunha, Theodoro Braga, Hygino Amanajás e outros.
Entre os livros escolares adotados e distribuídos no ensino primário no Pará na Primeira República, podemos citar Alma e Coração de Hygino Amanajás (publicado em 1900 e reeditado em 1905), e Apostilas de História do Pará de Theodoro Braga (1915). Sendo ambos de profissionais do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, o primeiro participou de sua criação em 1900 e refundação em 1917, e o segundo foi secretário da instituição após 1917. Os dois autores coadunavam com discussões comuns à época, sobre o papel e a importância da educação, como vias de ensinar a disciplina moral e patriótica ao povo, conhecendo e valorizando as tradições nacionais, especialmente as republicanas.
Alma e Coração é claramente um livro voltado para o uso escolar, primeiro por ser um livro de leitura, seguindo as recomendações de políticos e intelectuais do período, como José Veríssimo, que desaconselhavam o uso de compêndios de História do Brasil para o ensino primário, sendo os livros de leitura os mais indicados para os alunos, recheados de ensinamentos cívico-morais, e com narrativas que atraiam o público leitor.  Segundo, por ter sido inspirado no livro amplamente conhecido no Brasil do século XIX, e utilizado nas escolas de então, Coração de De Amicis. Adotando a estrutura narrativa do livro Italiano, em  forma de missivas. E terceiro, pelo conteúdo dos aconselhamentos e prelações do professor, claramente preocupado em cultivar nos alunos virtudes ligadas a preceitos morais-religiosos (AMANAJÁS, 1905).
Estimula nos alunos o amor a pátria e o estudo de História Pátria, necessários para conhecer o passado da nação, seus principais acontecimentos, e o conhecimento de seus heróis com conduta patriótica exemplar, a quem a mocidade deveria se inspirar, por suas ações grandiosas e abnegadas em favor da nação. Recheado de intenção educativa, cívica, patriótica e social, o livro Alma e Coração atribui grande valor a família, a escola e ao trabalho, necessários a conduta social do cidadão republicano
O livro de Theodoro Braga, por outro lado, elaborado 15 anos após Alma e Coração, momento em que já havia um forte clamor entre a intelectualidade local por temas regionais, na tentativa de demarcar nossas singularidades e especificidades, aborda assuntos de “História Pátria regional”, como alerta o autor em prefácio, demarcando as origens da cidade de Belém e seu passado colonial (BRAGA, 19015).        
Apostilas de História do Pará, apesar de esta direcionada aos dois públicos, a alunos e professores primários, pelos assuntos abordados e pela forma de abordá-los, podemos inferir que há um objetivo claro de formação do professorado local, ao tratar da origem do ensino primário no Pará, a importância do mestre-escola e o papel da mulher na educação.
Ao retratar os marcos de origens da cidade de Belém, suas origens históricas, buscava demarcar nossa identidade, dando a unidade necessária para a continuidade de uma trajetória gloriosa, amparada pelo progresso e pela civilização. A educação, os conhecimentos de História Pátria, das nossas narrativas históricas, seus feitos e heróis, seriam fundamentais neste processo. 
O saber de história escolar, construído pelos autores, pode ser caracterizado pelas escolhas dos assuntos, selecionando conhecimentos dignos de serem veiculados, construindo se uma memória histórica positiva da nação; pela forma de abordá-los, em uma busca incessante de conhecer o passado, e seus heróis, para que exemplarmente ele pudesse ser utilizado no presente; pela estrutura simples e objetiva da narrativa; e pela finalidade educativa por meio da História Pátria presente em ambas as obras, com conteúdo de supervalorização do patriotismo, para a conformação dos ideais nacionais, legitimadas pela História.
Assim, determinados fatos e heróis são valorizados em detrimentos de outros, inventando-se tradições nacionais, característica comum à literatura didática do período em estudo.  Esses conteúdos foram intencionalmente construídos e legitimados pelo Estado, que direcionavam, neste contexto, o que deveria ser veiculado por livros e ensinado por professores, através de um mecanismo de controle e avaliação dos livros que poderiam ser aprovados e adotados pelo Conselho Superior de Instrução Pública. Alma e Coração e Apostilas de História do Pará, deste modo, com o aval oficial, vão contribuir para validar um tipo de História e um tipo de narrativa histórica, tida neste momento como ensinável, condizente com projeto político patriótico republicano.

Referências
AMANAJÁS, Hygino. Alma e Coração. Belém: Typ. da Imprensa Oficial,1905.
BITTENCOURT, Circe M. F. Autores e editores de compêndios e livros de leitura. Educação e Pesquisa. São Paulo, v.30, n.3, p. 475-491, set./dez. 2004.  
 ________________________ As “tradições nacionais” e o ritual das festas cívicas. In: O Ensino de História e a criação do fato/ Jaime Pinisky (autor e organizador). 14 ed. São Paulo: Contexto, 2011
BRAGA, Theodoro. Apostilas de História do Pará. Belém: Imprensa  Official, 1915.
CARDOSO, Wanessa Carla Rodrigues. “Alma e Coração”: o Instituto Histórico e Geográfico do Pará e a Constituição do Corpus Disciplinar da História Escolar no Pará Republicano (1900-1920). 2013. 129f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Belém: UFPA, 2013.
GOMES, Ângela de Castro. A República, a história e o IHGB. Belo Horizonte, MG: Fino Traço, 2009.
_________________________História, ciência e historiadores na Primeira República. In: Ciência, Civilização e República nos Trópicos/Alda Heizer, Antônio Augusto Passos Videira (Org.)- Rio de Janeiro: Mauad X: Faperj, 2010.



7 comentários:

  1. Wanessa Cardoso, bom dia.
    Achei muito interessante a sua discussão sobre o envolvimento dos intelectuais vinculados ao IHGP no processo de construção do passado paraense por meio da escrita de livros escolares de História. Compartilho com você de algumas das inquietações apresentadas nesse textos, pois estou desenvolvendo um projeto sobre a produção de livros escolares pelos sócios do IHGRN.
    Diante disso, apresento duas questões: a primeira, quais seriam as principais características desse passado regional na escrita desses intelectuais paraenses? E, se você percebeu algum conflito em relação ao campo metodológico, de concepção historiográfica ou até mesmo de fatos descritos pelos autores

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    1. Boa noite Magno Santos. Em Apostilas de Historia do Pará, Theodoro Baga vai se voltar para o processo de colonização e a fundação da cidade de Belém, em um primeiro momento, exaltando os feitos portugueses responsáveis pela fundação do forte onde a cidade se originou, como Pedro Teixeira e Castello Branco, perpassando pelos jesuítas e sua importância capital para elevação da instrução pública do estado, devendo-se esse processo as ordens religiosas no período colonial. Já Higino Amanajás não cita seus escritos episódios de nossa História regional, apesar do ambiente do personagem da história ser a Belém do contexto e vivencia do autor, que ora ou outra exaltava os melhoramentos urbanos do contexto conhecido como belle époque. Quanto sua segunda pergunta, não percebi conflitos sobre os fatos descritos pelos autores por um focar em uma história pátria regional e o outros episódios da história nacional. As narrativas são tecidas de maneiras diferenciadas, o primeiro por ser uma apostila de historia do Pará os fatos, dados e heróis são apresentados com mais objetividade o segundo, Alma e Coração, é caracterizado como livro de leitura, onde os conteúdos de história pátria aparecem através de missivas que o personagem Ernesto escreve para mae, contanto o cotidiano da escola, e descrevendo as prelações da professora dia a dia. Obrigada pela participação. Grande abraço!!
      Wanessa Carla Rodrigues Cardoso

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  2. Bom dia Wanessa,
    A professora Circe Bittencourt apresenta em seu livro "Pátria, civilização e trabalho" um cenário do ensino nas escolas paulistas dentro deste contexto do ideário republicano. Nesta obra ela afirma que a margem do interesse do Estado, surgiram modelos alternativos de educação, como por exemplo as escolas de cunho anarquista, as quais foram devidamente perseguidas e fechadas pelos governos da época. Eu gostaria de saber se em sua pesquisa você percebeu algo semelhante no Pará? Alguma proposta conflitante com a produção apontado em seu texto. Obrigado.
    Ernesto Padovani Netto

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    1. Boa noite Netto Padovani. Por ter me debruçado em fontes oficiais e revistas pedagógicas que eram espécies d boletins da instrução pública, além da revista do Instituto Histórico e Geográfico do Pará que representa a voz da própria oficialidade local, não consegui perceber esses modelos alternativos de educação, mas a temática me interessa muitíssimo, o anarquismo e associações de operários no Pará foi muito forte nas primeiras décadas do século XX. Muitíssimo obrigada. Um Abraço!!
      Wanessa Carla Rodrigues Cardoso

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  3. Boa noite,

    Me chamo Jorge Luiz e sou doutorando em História pela Universidade Federal do Ceará. Achei interessante a sua discussão e gostaria de saber se você não viu alguma relação entre a refundação do IHGP, em 1917, e o contexto político nacional, com a república de base ruralista sendo questionada por grupos como os tenentes, por exemplo? Pergunto porque em minha pesquisa tenho percebido que, no interior do Ceará, os anos imediatamente anteriores à proclamação da República (a partir de 1870) foram marcados pelo surgimento de várias associações intelectuais (gabinetes de leitura, centros literários, escolas populares); o mesmo se deu a partir da metada de década de 1910 até 1930 (novos gabinetes de leitura, jornais, bibliotecas associativas etc.). Tais constatações me fazem pensar na relação entre as crises dos sistemas de governo em vigor no país e estes surtos de ação intelectual.

    Jorge Luiz Ferreira Lima

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    1. Boa Noite Jorge Luiz. Aqui varias associações artístico- literárias e cientificas foram criadas ao longo do XIX e primeiras décadas do século XX, como a Academia Paraense de letras e o próprio IHGP, fora a fundação de vários jornais e revistas. Interessante essa relação e faz todo o sentido já que essas associações e esses periódicos eram por vezes porta voz das ideias e das transformações em curso. A imprensa Republicana no Pará foi de grande importância. Jornais como O Cosmopolita, A República e a criação do Clube republicano, tanto na capital como a criação de Clubes pelo interior, foram as principais vias na disseminação das ideias e debates sobre a republica no Pará. obrigada por sua participação. Abraços!
      Wanessa Carla Rodrigues Cardoso

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  4. Boa Noite Jorge Luiz. Aqui varias associações artístico- literárias e cientificas foram criadas ao longo do XIX e primeiras décadas do século XX, como a Academia Paraense de letras e o próprio IHGP, fora a fundação de vários jornais e revistas. Interessante essa relação e faz todo o sentido já que essas associações e esses periódicos eram por vezes porta voz das ideias e das transformações em curso. A imprensa Republicana no Pará foi de grande importância. Jornais como O Cosmopolita, A República e a criação do Clube republicano, tanto na capital como a criação de Clubes pelo interior, foram as principais vias na disseminação das ideias e debates sobre a republica no Pará. obrigada por sua participação. Abraços!
    Wanessa Carla Rodrigues Cardoso

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