A PÓLIS COMO EDUCADORA DA HÉLADE NA GRÉCIA ANTIGA
Silvana Bollis
Dnt. PPGE- UFG
Pensar a educação na perspectiva da paideía grega significa interrogar o sentido da vida coletiva, do éthos, do mundo da cultura, esfera da criação instituinte e normativa, diz respeito ao âmbito da liberdade e da autonomia pensadas pela primeira vez na história, como forma grega de participação efetiva nas decisões sobre as questões da pólis democrática.
Mais do que um aglomerado de pessoas, a pólis é constituída por um espírito de pertencimento ao grupo, elo de ligação entre os cidadãos da hélade, (conjunto de póleisgregas unidas por laços de etnia, — baseada na crença de que os gregos descendiam dos deuses, essa genealogia era contada por meio de algumas lendas da mitologia — pela identidade da língua, por costumes, ritos, mitos e santuários comuns aos deuses) que instaura a igualdade perante a lei e a unidade entre eles, regulando o conflito que é constitutivo da vida na comunidade. É o sentimento de coletividade que caracteriza a grandeza de alma dos gregos, na vigilância constante própria de uma vida social que busca o equilíbrio por meio da justiça, combatendo a injustiça causadora de contendas entre os cidadãos (BOLLIS, 2013, p. 21).
Na Grécia, o nascimento da pólis inicia uma época de mudanças na interpretação da realidade pelo desenvolvimento do pensamento racional à medida que o lógos substitui gradativamente as explicações mítico-religiosas.
Se queremos proceder ao registro de nascimento dessa Razão grega, seguir a via por onde ela pôde livrar-se de uma mentalidade religiosa, indicar o que ela deve ao mito e como o ultrapassou, devemos comparar, confrontar com o background micênico essa viragem do século VIII ao século VII em que a Grécia toma um novo rumo e explora as vias que lhe são próprias: época de mutação decisiva que, no momento mesmo em que triunfa o estilo orientalizante, lança os fundamentos do regime da pólis e assegura por essa laicização do pensamento político o advento da filosofia (VERNANT, 2004, p.11)
A organização do regime da pólis é um fato decisivo na história do pensamento grego e, consequentemente, da cultura ocidental. O nascimento da pólis e da filosofia são acontecimentos solidários, imbricados.
Aristóteles (Política, 1252 a) observa “que toda a cidade é uma certa forma de comunidade e que toda a comunidade é constituída em vista de algum bem. E que, em todas as suas ações, todos os homens visam o que pensam ser o bem”. Para o filósofo, a pólisé a koinonía, a associação mais perfeita, pois engloba todas as demais e por ser “aquela que toma a forma de uma comunidade de cidadãos” é justamente, a que busca o bem mais elevado.
Na Grécia do período clássico os gregos buscam o télos, o fim, da formação do homem para a realização da comunidade justa, em que a isegoría, liberdade de expressão e a isonomía, igualdade de direitos garantem a participação plena dos atenienses na ekklesía, assembleia geral de todos os cidadãos que, reunidos na agorá, debatem e decidem os rumos da pólis.
“A interrogação arrazoada sobre o que é bom e o que é mau, sobre os próprios princípios em virtude dos quais podemos afirmar, superando as trivialidades e preconceitos tradicionais, que uma coisa é boa ou má, nasceu na Grécia” (CASTORIADIS, 1987, p. 268). Por esse motivo, a paideía grega ainda se apresenta como referencial que permite pensar radicalmente as questões da existência humana da atualidade.
A formação do homem grego não acontece separada da pólis; ao contrário, a pólisé uma experiência de pensamento. É na convivência orientada pelo espírito de philía, amizade, que a paideía se realiza como interrogação da vida coletiva. Há uma primazia da esfera do público sobre os interesses particulares e as vontades individuais.
Só na pólis se pode encontrar aquilo que abrange todas as esferas da vida espiritual e humana e determina de modo decisivo a sua estrutura. No período primitivo da cultura grega, todos os ramos da atividade espiritual brotam diretamente da raiz unitária da vida em comunidade. [...] Descrever a cidade grega é descrever a totalidade da vida dos gregos (JAEGER, 2003, p. 107).
A instituição do regime da pólis é decisiva na história do pensamento grego e consequentemente, da cultura ocidental “fenômeno único, cuja explicação cabal ainda não foi dada” (PEREIRA, 1967, p. 132). O advento da pólisgrega se deu por conta das características geográficas do seu território montanhoso, que compartimentava as terras, as dificuldades de comunicação entre as regiões, a “insegurança posterior à invasão dórica e a falta de um poder central forte que defendesse os homens” (PEREIRA, 1967, p. 133). A identidade da língua, os costumes, a religião, enfim, todo um sistema de cultura, um modo de vida orientado no espírito de philía, amizade, sentimento de pertencimento ao grupo dos cidadãos foi constitutivo da essência da pólis.
O ideal da paideía é a areté, virtude que promove a elevação espiritual dos gregos, ou seja, a formação ética, cultural e cívica, visando o homem excelente para a realização da politeía perfeita — reunião de cidadãos num certo território e sob o jugo da lei —. Diferentemente da sociedade atual, onde se prioriza o indivíduo e seus interesses particulares acima do público. A paideía é constitutiva da humanidade do Homem, que diz respeito ao âmbito da cultura, da vida em comum, pela busca da excelência, da virtude necessária à realização da eudaimonía, felicidade, que na compreensão dos gregos, não é estado psicológico, mas pertence ao plano da universalidade, da vida coletiva, o que significa que a plenitude da humanidade só é realizável em sua forma mais perfeita de existência, ou seja, na pólis, tà politiká, campo da vida pública.
Os atenienses do tempo de Platão e Aristóteles entendiam o nómos ordenador como o único soberano capaz de reger a vida coletiva. A possibilidade de alcançar o bem comum exige que o krátos, o poder, a autoridade soberana, seja posta nas mãos da lei. “O éthos como lei é, verdadeiramente, a casa ou a morada da liberdade” (LIMA VAZ, 2013, p. 16) que o homem constrói por meio da sua ação ética e consciente. A prâksis é a ação mediadora na elaboração e reelaboração do mundo da cultura, sempre aberto e jamais terminado. Nessa perspectiva, a educação se faz paideíana busca sempre inconclusa do aperfeiçoamento do espírito humano que, ao criar e recriar o universo da cultura humaniza e recria o seu próprio ser na periagogé, na conversão ao Bem.
Referências
ARISTÓTELES. Política. Trad. e notas Antônio Campelo Amaral e Carlos de Carvalho Gomes. Lisboa: Vega, 1998.
BOLLIS, Silvana. Paideía Filosófica [manuscrito]: O sentido da formação n’A Repúblicade Platão. Dissertação (Mestrado) — Universidade Federal de Goiás, Faculdade de Educação, 2013.
CASTORIADIS, Cornelius. As encruzilhadas do labirinto II: Os domínios do homem. Trad. José Oscar de Almeida Marques. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987, v. 54.
JAEGER, Werner. Paideia: A formação do homem grego. Trad. Artur M. Parreira. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
LIMA VAZ, Henrique C. Escritos de filosofia II: Ética e cultura. 5. ed. São Paulo: Loyola, 2013.
PEREIRA, Maria Helena da Rocha. Estudos de História da Cultura Clássica. 2. ed. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1967, v. 1.
VERNANT, Jean-Pierre. As origens do pensamento grego. Trad. Ísis Borges B. da Fonseca. 14. ed. Rio de Janeiro: Difel, 2004.
Olá, Silvana! Parabéns pelo seu texto. Gostei muito dele! Parece-me que há um diálogo possível e muito interessante entre seu trabalho e o do Luiz Henrique Moreira, também publicado nesta seção ou "mesa" e para o qual acabo de postar uma pergunta também. No seu caso, farei uma espécie de "provocação".
ResponderExcluirEm que medida você considera (se é que considera em alguma medida) a filosofia como elemento disruptivo neste tecido social políade? Digo isto porque, sobretudo no século V a.C., a natureza disto que chamamos "filosofia" estava em jogo, bem como a definição de suas fronteiras com a sofística. Sejam quais forem as respostas que adotemos para estas questões levantadas na Antiguidade, ainda assim o que nos resta é que a sofística relativizava de forma aparentemente bastante radical esse nomos que sustenta a polis na visão aristotélica e que a educação socrática teve a ver (e a natureza desse "ter a ver" depende da filiação das fontes: caso seja uma fonte simpática a Sócrates, sua filosofia foi incapaz de refrear os rudes excessos das almas de seus educandos; se a fonte é hostil, justamente a filosofia socrática a desencadeia, como na peça "As Nuvens", de Aristófanes) com boa parte dos "trinta tiranos" que viriam a se ocupar do governo da cidade após a derrota para Esparta, bem como foi incapaz de refrear Alcibíades, um dos discípulos amados.
Boa tarde Jorge! Agradeço seu interesse pelo texto e também sua "provocação", que é bastante pertinente. Considero sim a filosofia como possibilidade de romper com a realidade instituída, à medida em que ela forma o Homem capaz de pensar e criar o novo, questionar a sociedade instituída é o primeiro passo para pensar outras formas possíveis de organização da vida coletiva. A filosofia, enquanto práxis não oferece garantias de resultado, mas apresenta-se como possibilidade de pensar, visando o agir consciente e ético necessário para a transformação do real.
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