GYMNASIO AMAZONENSE PEDRO II: PROSOPOGRAFIA DO CORPO DISCENTE (1930-1933)
Rodolpho Luiz Almeida Vieira
Prof. Esp. História UNIASSELVI
Uma pesquisa inicializada no início de 2016 procurou fazer um levantamento utilizando de um método ainda pouco conhecido: a Prosopografia. O trabalho com os resultados foi apresentado na modalidade de Trabalho de Conclusão de Curso de graduação, defendido no mesmo ano. O levantamento prosopográfico dos alunos do antigo Gymnasio Amazonense Pedro II no período de 1930 a 1933, na cidade de Manaus/AM.
Os documentos utilizados são primordialmente os Históricos de Vida Escolar e Livros de Matrícula do período que se encontram no acervo histórico do Colégio Amazonense D. Pedro II. Utilizando-se da prosopografia, a pesquisa é uma contribuição à História da Educação no Amazonas, buscando apresentar em seus resultados um mapeamento geracional, com as origens familiares e as principais características do corpo discente da instituição no período analisado.
A prosopografia ainda é considerada por muitos como um método novo a ser aplicado a História, porém bem vista e considerada como de grande ajuda para a interpretação de grandes grupos sociais atuantes na construção histórica. Um ponto interessante dito por Almeida, diz respeito a pesquisas históricas: “a prosopografia hoje é exercida na pesquisa histórica, mas não é só isso, mudaram-se as expectativas e os objetivos ligados à prosopografia como método aplicado a pesquisa histórica” (ALMEIDA, 2011, p.8).
O objetivo era tentar compreender quais eram os grupos sociais a que pertenciam os alunos da instituição no período, e buscar responder quais as principais características desse corpo discente, tentando perceber quais as influências da política educacional vigentes no Brasil e em específico na educação amazonense do período em vista.
Levantaram-se algumas indagações, como por exemplo: a que tipo de sociedade fazia parte o grupo de alunos analisados? O que pode ser apresentado de informação que nos possibilite reconhecer os vestígios do tipo de educação d a época? O que as fontes que nos permitem visualizar a respeito da vivência destes alunos dentro da escola?
Trabalhamos com fontes encontradas no porão do atual Colégio Amazonense Dom Pedro II, localizado na Av. Sete de Setembro, Centro Histórico de Manaus, que no período estavam sendo organizadas, catalogadas e higienizadas através do projeto “Colégio Amazonense Dom Pedro II: memória, patrimônio e fontes históricas”, que possibilitou a consulta para fins de pesquisa.
O recorte temporal da pesquisa se relaciona às transformações da educação brasileira no período. A História da educação no Brasil atravessa vários períodos, passando por várias alterações. Antes de entrar no objetivo da pesquisa, para que possamos chegar a entender como se conformava o ensino no Amazonas, faz-se necessário o prévio conhecimento da educação a nível nacional.
De acordo com o que Saviani (2008) apresenta, iniciando ainda no século XIX, a educação brasileira acompanha os modelos internacionais. Já no século XX, as décadas iniciais vêm acompanhados de rupturas, adaptações e inovações nunca antes experimentadas. O modelo de educação no século XX já não é o mesmo do que pode ser visto antes da instalação da República brasileira. Saviani fala que do “início do período republicano com a criação dos grupos escolares, até o final da Primeira República o ensino escolar permaneceu praticamente estagnado...” (SAVIANI, 2008, p. 150).
É durante este período inicial da década de 1930 que começarão a surgir as inovações e avanços na educação que deveriam chegar a todos os estados do Brasil. Sentimos a necessidade de voltar os olhares para a sociedade amazonense e como esta estava organizada dentro da educação e principalmente no interior das escolas com os alunos.
Alguns poucos estudos locais vêm se dedicando à história da educação no Amazonas de forma a pontuarem especificamente determinado grupo social. Geralmente o que se vê são generalizações voltadas a contar os fatos sobre a maioria ou mesmo um todo. Mota (2015) em sua tese de doutorado, voltada para a educação no Amazonas, ressalta a importância da Escola Normal do Amazonas entre os anos de 1889 a 1945.
A referida autora faz um levantamento da documentação existente em museus, arquivos públicos, jornais locais, afim de seguir o rastro das fontes que falam da Escola. (MOTA, 2015).
A autora reserva algumas páginas de sua dissertação para contextualizar o ano de 1930 a 1945 como anos da Era Vargas, ressaltando o desenrolar do contexto educacional refletida nas políticas governamentais locais. Pode ser comprovada a movimentação e repercussão das alterações pela quantidade de decretos oficiais emitidos nos cinco primeiros anos do novo governo brasileiro. O alvo de Mota explicitamente volta-se para a movimentação da Escola Normal e sua trajetória; de grande valia, toma-se sua observação para estabelecer a escola em questão no modelo educacional local colocando também em pauta o entendimento e inserção do Gymnasio (MOTA, 2015).
O recorte espacial está pautado em virtude da localização das fontes encontradas na escola. A nomenclatura é um dos principais meios de verificar-se e afirmar-se este processo que vem se alastrando desde as transformações provinciais em decorrência do contexto histórico que vai desde o século XIX com o Lyceu Provincial Amazonense (1887), seguido de Gymnasio Amazonense (1893).
Já no século XX, o período que mais foram feitas alterações nominais, iniciando por Gymnasio Amazonense Pedro II (1925) que será o foco principal na pesquisa, antecedendo Gymnasio Amazonense (1938), Colégio Estadual do Amazonas (1943), Unidade Educacional Colégio Estadual do Amazonas (1971), Colégio Amazonense Dom Pedro II (1975), Escola de 1º e 2º Grau Dom Pedro II (1980), Colégio Amazonense Pedro II (1981) e Colégio Amazonense Dom Pedro II (1982).
A este ponto, já se deve ter ficado claro de acordo com o apresentado o motivo da escolha da delimitação temática. Longe de querer transformar o trabalho em mais uma reunião de informações que se somará a tantas outras já existentes, imagina-se que a contribuição deste fará com que um novo olhar seja levantado para este lugar que é um dos principais referenciais de Manaus como formador da elite local de acordo com Mota: “Apesar dos inúmeros acontecimentos, o Gymnasio Amazonense Pedro II tornou-se um referencial, contribuindo para a formação de pessoas renomadas na cidade de Manaus” (MOTA, 2012, p. 789).
Ficando ainda uma parte deste trabalho de análise voltado para relacionar possíveis novas contribuições para a História da Educação no Amazonas, tendo como base as mesmas fontes consultadas que guia sobre o estabelecimento da organização. Há também que estabelecer que o recorte pode ser muito mais aprofundado, discutido e refletido partindo dos novos resultados inseridos.
A exemplificar, apenas dois questionamentos que podem dar novos rumos: não constam ainda informações sobre notas das disciplinas cursadas no ensino secundário tendo em vista que existem fontes que direcionem para a resposta. Outro ponto que no futuro certamente poderá ser apresentada é a questão das notas escolares e conceitos aplicados aos alunos.
Referências Bibliográficas
ALMEIDA, Carla Beatriz de. A prosopografia ou biografia coletiva: limites, desafios e possibilidades. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH, São Paulo, jul. 2011.
MOTA, Assislene Barros da. A Escola Normal do Amazonas: a formação de uma identidade (1889-1945). 2015. 147 f. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade de Sorocaba, Sorocaba, 2015.
______. História e Memória da Educação na Cidade de Manaus (1889-1930). In: IX SEMINÁRIO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS “HISTÓRIA, SOCIEDADE E EDUCAÇÃO NO BRASIL”, 2012, João Pessoa. Anais Eletrônicos – ISBN 978-85-7745-551-5. João Pessoa, 2012.
SAVIANI, Demerval. História da História da Educação no Brasil: um balanço prévio e necessário. EcoS – Revista Científica, São Paulo, v. 10, n. especial, p. 147-167, 2008.
Achei muito interessante sua pesquisa.
ResponderExcluirVocê chegou a trabalhar com Pierre Bourdieu? Creio que o autor seria muito útil caso pretender continuar com pesquisas nessa linha.
Abraços.
Grato pelo seu questionamento, fico feliz que a minha pesquisa tenha lhe interessado.
ResponderExcluirEntão, sendo pontual a sua resposta, não. Mas não fiz o uso do Bourdieu por uma questão pessoal de achar que a "hora" de citá-lo ainda chegaria, findando no não uso. Sem dúvidas que concordo com você que seria muito pertinente sua citação. Certamente que darei continuidade ao meu trabalho, pois ainda há muito o que contribuir; pretendo prosseguir no mestrado.
Se por acaso tiver mais sugestões ou dúvidas, sinta-se à vontade em dizê-las.
Muito interessante sua pesquisa Rodolpho, a História da Educação no Amazonas realmente precisa de mais estudos, um levantamento social dos discente pode nos mostrar quem eram estas pessoas, e como se mostrava a sociedade local da época, bourdieu realmente seria um bom caminho para dar continuidade à está pesquisa!
ResponderExcluirObrigado, Marcia. Por isso também acho que a importância de continuar os estudos sobre a História da Educação no Amazonas; o número de colaborações nessa temática ainda é muito baixa. Ainda tenho muito o que trabalhar para sanar essas e outras dúvidas ligadas à sociedade e aos discentes analisados no meu trabalho que com certeza o Bourdieu auxiliará.
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