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Paula Lorena; Maria Inês Stamatto

A FORMAÇÃO DO CIDADÃO NOS PRIMEIROS ANOS DA REPÚBLICA: O LIVRO DIDÁTICO “NOSSA HISTÓRIA”
Paula Lorena C. A. da Cruz
Dnt. PPGED/UFRN
Drª. Maria Inês S. Stamatto
Prof. Titular UFRN

A escola se tornou no início do século uma das principais vias de disseminação das ideias republicanas, lugar de práticas responsáveis por forjar nas novas gerações o sentimento de pertença à nação, práticas essas que podiam ser percebidas claramente através das disciplinas e do cotidiano da escola.
Desde o Império percebemos, uma preocupação com a produção de materiais didáticos e isso inclui o ensino da História. Foram surgindo cartilhas, compêndios e livros didáticos da área. A disciplina se tornou o carro chefe dos interesses políticos por ser considerada “a legitimadora da tradição nacional, da cultura, das crenças, da arte, do território” (BITTENCOURT, 2004, p. 43).
Nos primeiros anos da República, encontramos um dos livros didáticos de História Pátria que foi direcionado para a escola primária, a saber: Nossa Pátriade Rocha Pombo.
O autor era jornalista, pertencente ao partido conservador. Tornou-se escritor de livros literários e históricos. Defendia em seus trabalhos a concepção de progresso, atribuindo-o não apenas ao desenvolvimento material, mas intelectual e moral. (VIANNA, 2009).
O livro Nossa Pátria teve sua primeira edição lançada em 1917, tendo várias outras reedições ao longo anos. Essa obra foi a mais reeditada de Rocha Pombo. O livro continha cerca de 150 páginas.
No próprio prefácio que remonta a primeira edição de 1917, o autor dedica a produção às “crianças e homens simples do povo” (POMBO, 1947). Tinha por objetivo “ criar e nutrir o sentimento da pátria pelo conhecimento das suas grandes tradições e de seus novos feitos” (POMBO, 1947). Podemos perceber que o livro comungava com os ideais de sua época e, portanto, era uma obra apta ao ensino dos jovens do período, fomentando nesses o “amor à pátria”. A preocupação em formar nos alunos o sentimento patriótico é visto nitidamente em todo obra, com a exposição dos símbolos, heróis e eventos que eram apresentados como manifestação de toda a população.
Logo em suas primeiras páginas vemos a preocupação com a formação do nacionalismo através do estudo do símbolo maior da nação: a bandeira. O autor faz uma retrospectiva, apresentando todas as bandeiras que existiram no país: Bandeiras da Era colonial; Principado, Reino e Império e por fim, Bandeira do Brasilreferente a República.  A última dedica um gráfico explicativo, dado a importância que tal estudo tinha para época. Segundo Pombo (1949, p. 8), “A nossa bandeira nos lembra o nosso passado, nos une no presente e nos encoraja para o futuro”. Pensamento que direcionava ao sentido patriótico de unidade a um futuro que se chamava república.
As formas geométricas, bem como a posição das estrelas na circunferência representando as constelações do Cruzeiro do Sul, Escorpião e o Triângulo Austral; apresentando tamanhos, distâncias e nomes das estrelas, nos revela que não era simplesmente mostrar a Bandeira Nacional, mas ministrar aulas sobre o assunto, no intuito de que os alunos internalizassem o símbolo estudado (CRUZ, 2015, p. 132-133).
A respeito dos personagens históricos, são referenciados como heróis. Os capítulos dedicados a esses, são descritos enaltecendo as personalidades e suas ações. A personificação de heróis nacionais se fazia necessário para a formação do nacionalismo, legitimação do novo regime, pois
heróis são símbolos poderosos, encarnações de ideias e aspirações, pontos de referência, fulcros de identificação coletiva. São, por isso, instrumentos eficazes para atingir a cabeça e o coração dos cidadãos a serviço da legitimação de regimes políticos (CARVALHO, 1990, p. 55).
Os personagens da elite brasileira eram os que mais tinham ênfase no livro. Contudo, o maior destaque não pertencia a elite. Tiradentes, pertencente à Colônia, foi o escolhido para ser herói nacional, atribuindo-lhe as ideias de nacionalismo, liberdade, coragem, unidade, para além disso, mártir, pois mesmo com o Estado laico, o herói republicano brasileiro representava a religiosidade do povo. Logo, a figura de Tiradentes criou aspectos de um novo Cristo, o salvador da pátria, tornou-se um Herói cívico-religioso (CARVALHO, 1990, p.10).
Este é um homem dos mais dignos entre os que figuram a nossa história como exemplos de amor à Pátria. Também, soube ele morrer com o seu silêncio, a sua coragem e a sua resignação cristã, aquela tirania que pesava sobre os povos da colônia como uma grande mão de ferro (POMBO, 1947, p. 90-91).
Além da construção de uma História Pátria, a partir da imagem de uma nação com heróis, encontramos a preocupação com a formação do imaginário da unidade nacional através do estudo da constituição do povo brasileiro. Era importante apresentar a unidade entre as etnias, em vista da construção da ideia de Nação. Isso já aparecia desde meados do século XIX e adentrou o início do século XX.
O branco, o índio e o negro, a composição do povo brasileiro precisava ser explicada e colocada como colaboradora da construção nacional, apresentando-os de forma homogênea, sem conflitos e com papéis definidos.
O branco já possuía “seu lugar” na História representado por personagens de origem europeia, com a obrigação de levar a civilização aos demais povos (CRUZ, 2015). Aos índios, dedicava-lhes apenas um capítulo, no qual era explicado que o indígena acolhia a ideia de incorporação da superioridade europeia (VIANNA, 2009) e que os costumes dos indígenas eram próprios da ignorância, pois o autor explicava para os leitores que “Estes [índios] ainda estavam muito atrasados quanto à civilização”. Pombo defendia o relacionamento do branco com índio como algo homogêneo e salvador:
Ao lugar do desembarque deu Cabral o nome de Porto Seguro; e celebrou-se ali a cerimônia que foi muito festiva e tocante. Ergue-se na praia uma grande cruz de madeira e, junto a ela, um altar onde se cantou a primeira missa em terra da nossa América. Diante de tudo aquilo, os índios mostraram-se muito espantados, imitando os portugueses em tudo o que estes faziam. Houve um velho, entre os índios, que no seu espanto apontava para o alto da cruz, como sentindo-se arrebatado de alegria à vista daquele estranho sinal que lhe falava ao coração (POMBO, 1947, p. 22).
Em relação ao negro, também existia um capítulo dedicado a este. Contudo, o autor não se deteve na cultura africana, nas resistências e desafios no novo continente, mas buscava amenizar a violência da escravidão, justificando que tal prática era comum na África entre as tribos. Buscava-se formar uma imagem de harmonia entre as duas etnias, brancos e negros conviviam bem, os que fugiam era por maltrato de alguns senhores.
A preocupação com a formação do nacionalismo através do ensino de História pode ser observado no livro de Rocha Pombo nos eventos históricos do país, como foram retratados na obra. O momento dedicado a Guerra do Paraguai é apontada como um grande feito de heroísmo dos brasileiros, como se todo o povo tivesse se envolvido e quisesse ter lutado pela nação brasileira.
Os nossos marinheiros deram provas inexcedível de heroísmo. Combateu-se durante quase um dia inteiro. Até que os navios de Lopez que se puderam salvar, puseram-se em fuga [...]. É este o mais notável feito de armas da nossa pátria. (POMBO, 1949, p. 121).
A própria proclamação da República é apresentada pelo autor como necessária, explicando que com a enfermidade de D. Pedro II, a princesa Isabel assumiria o Império e isso não era visto com bons olhos pelo povo. Então, os homens que desejavam a república, juntamente com o exército decidiram que era tempo de proclamá-la e logo “tudo seguiu bem. A ordem era tão perfeita...”. Tal fato era explicado ao leitor como necessário ao progresso, pois era algo a longo tempo pensado para o país e que de forma tranquila conseguiu se consolidar.

Considerações finais
Por fim, ao estudarmos o ensino de História no Brasil durante o início do século XX através do livro didático de Rocha Pombo, pudemos perceber como essa área do conhecimento foi se constituindo e se tornando o carro chefe importante na busca de se formar o cidadão republicano. O uso da História serviu para legitimar o novo governo, através de um passado glorioso e de um futuro embasado no progresso, formar uma sociedade republicana, que amasse a sua pátria e que comungasse com ideário que se pretendia divulgar.

Referências bibliográficas
BITTENCOURT, Circe. As 'Tradições Nacionais" e o Ritual das Festas Cívicas. In.: PINSIKY, Jaime. O ensino de História e a criação do fato. 11 ed. São Paulo: Contexto, 2004.
CRUZ, Paula Lorena C. A. da. A educação como instrumento na construção do imaginário republicano: Grupo Escolar Barão de Mipibu (1909-1920). 2014. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 2014.
POMBO, Rocha. Nossa Pátria: narração dos fatos do Brasil através da sua evolução. 81 ed. São Paulo: Melhoramentos, 1947.
CARVALHO, José Murilo de.  A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
VIANNA, Juliana Golin Xavier. A produção didática de Rocha Pombo: análise de História da América e Nossa Pátria. 2009. Monografia (Curso de História) – UFPR, 2009.


6 comentários:

  1. Paula Cruz e Maria Stamatto,
    Primeiramente, parabéns pelo trabalho. A pesquisa aponta para questões bem interessantes para pensarmos a produção de livros escolares de História ao longo da Primeira República, bem como para os valores que deveriam ser difundidos na época por meio do ensino.
    Nos livros escolares de História escritos no período da Primeira República, encontramos uma valorização do civismo, por meio da difusão de biografias de heróis, da elucidação de mitos fundadores e de símbolos nacionais. Outra questão relevante era a valorização das experiências históricas regionais, dentro de uma concepção federalista. Com isso, gostaria de saber como esse livro de Rocha Pombo expressava a relação entre nacional e regional nessa história pátria.
    Cordialmente,
    Magno Francisco de Jesus Santos
    Professor da área de Ensino de História do DEHIS/UFRN.

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  2. Olá professor Magno,

    o livro de Rocha Pombo, não se preocupa em trabalhar as experiências históricas regionais, no máximo apresenta as diferenças climáticas entre o sul e o norte comparando o primeiro com a Europa. Porém não se detém em temas de cunho regionalista. No entanto, a sua afirmação é pertinente, pois no ensino de História do grupo escolar Barão de Mipibu, objeto da minha monografia no curso de História da UFRN, percebemos que existia sim uma preocupação com a história regional. Os diários de classe da instituição apontam momentos dedicados ao estudo de personagens e eventos históricos locais, a saber: André de Albuquerque, Felipe Camarão, Revolução de 1817, a fundação de Natal bem como ensaio de hinos como o de "Dá Pátria de Camarão". Portanto, existia essa prática de valorizar as experiencias históricas regionais, porém não encontramos isso no livro "Nossa Pátria".

    Espero ter sanado a sua dúvida.
    Att.

    Paula Lorena Cavalcante Albano da Cruz.

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    1. Olá Paula,
      Imaginei que esse livro de Rocha Pombo realmente fosse assim, mais próximo de seu livro de História do Brasil voltado para o público acadêmico. Achei muito interessante essa discussão de seu TCC. Onde ele está disponível? Gostaria de fazer a leitura desse texto, bem como de sua dissertação, assim que concluir.
      Cordialmente,
      Magno

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  3. Fabiano Moreira da Silva4 de abril de 2017 às 14:02

    Maria Stamatto e Paula Cruz ,
    Primeiramente parabenizo pela pesquisa. O tema é muito interessante. Eu pesquiso os professores do ensino primário na cidade de Salvador no período de 1912 a 1918 e em várias fontes me deparo com esse discurso da formação do cidadão patriótico, o futuro da nação , o cidadão republicano porém, ao verificar como o ensino era ofertado, principalmente em relação as condições físicas das escolas e o trabalho dos professores , percebo que o discurso pouco se concretizava na prática. Como era a realidade das escolas em Natal tomando o exemplo do grupo escolar pesquisado ? Obrigado.

    Fabiano Moreira da Silva
    Mestrando em História - Universidade Federal da Bahia

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  4. Olá Fabiano,
    tanto no grupo escolar que pesquiso como em leituras que fiz acerca de grupos escolares no RN, percebo que existia sim a prática de formar o cidadão republicano. A própria disciplina de História, bem como Moral e Cívica, Educação Física e Hinos, nos revelam essa intenção. Os diários de Classe e Termos de visita que pesquisei apontam momentos dedicados ao civismo. Isso ocorria através das aulas de história, dos desfiles cívicos, do ensaio de hinos, da práticas física como ensaio do ato de marchar para os desfiles cívicos. Então, aqui no RN é possível perceber esse tipo de prática.

    Att.

    Paula Lorena Cavalcante Albano da Cruz.

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  5. Maria Stamatto e Paula Cruz, boa noite.
    Parabéns pela pesquisa, um tema muito interessante pra mim. Sou graduando em História, pela Universidade Estadual da Paraíba. Me interessei bastante pelo tema, acredito que não exista trabalhos sob esse tema do ensino de História e a formação desse cidadão republicano aqui na minha cidade. Mas a minha pergunta, na verdade é sobre alguma outra dica de livro que trabalhe essa questão, só a nível de quem está começando na área. Quais obras você me indicaria?

    Edilson de Souza Marques
    Graduando em História pela Universidade Estadual da Paraíba

    Edilson de Souza Marques

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