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Patrícia Hadlich; Marjorie Sansigolo; Cristina Valéria; Carla Cattelan

ANÁLISE DOCUMENTAL HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO (1952 – 2016): BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE ELEMENTOS DA PEDAGOGIA TRADICIONAL NO ENSINO ATUAL
Patrícia Hadlich
Marjorie Sansigolo
Cristina Valéria Turmina
Carla Cattelan
UNIOESTE

Introdução
O presente trabalho constitui-se de uma pesquisa realizada no Centro de Memórias do Sudoeste do Paraná - CEMESP  localizado na instituição de ensino superior Universidade Paranaense – Unipar – Campus de Francisco Beltrão. Como trabalho da discíplina de Fundamentos Teóricos e Metodológicos do Ensino de História, ministrada pela professora Carla Cattelan. O qual tem por objeto de pesquisa, analisar e refletir sobre documentos educacionais históricos regionais (fontes primárias) devidamente selecionados.
 Como objeto de investigação, selecionamos atividades produzidas pelos alunos na década de 1950 em Francisco Beltrão e atividades recentes do ensino fundamental séries iniciais de 2016. O objetivo foi refletir e analisar as atividades desenvolvidas em ambas as épocas, no que compete ao ensino de Matemática e Língua Portuguesa, traçando breves considerações a respeito da Pedagogia Histórico-Crítica.

Análise histórica das atividades escolares: atividade década de 1950 e atividade de 2016
Diferente da visão positivista, o estudo da história no contexto educacional, vem se utilizando recentemente de diferentes fontes históricas, não que as fontes normativas e burocraticas deixaram de fazer parte deste itinerário, mas foram vistas com “outros olhos” pelos pesquisadores. Como frisa Vinão (2008) na teoria do “Olho Móvel”, tudo depende da posição que se adota aquele que esta olhando e o lugar de onde se esta olhando, “[...] o lugar de onde se olha condiciona não somente o que se vê, mas também como se vê o que se vê” (VINÃO, 2008, p. 15).
Assim, procuramos observar duas fontes históricas produzidas pelos alunos, uma em 1952, em uma escola da Colônia Agrícola Nacional General Osório – CANGO e uma de 2015, de uma escola municipal de Francisco Beltrão. Os “cadernos escolares”, bem como os registros feitos pelos alunos e também pelos professores, são elementos essenciais para o entendimento da organização escolar de um período ou época. São vestígios da história.
Segundo Vinão (2008) os cadernos escolares são “produtos da cultura escolar”, sendo o caderno caracterizado como, “[...] um documento que, a despeito de seu carater disciplinado e regulado, permite entrever, em ocasiões, a “personalidade” do aluno, além de incluir referencias a si mesmo, a seu mundo familiar e a seu entorno social (VINÃO, 2008, p.16)”.
A fonte histórica analisada é uma atividade que foi desenvolvida em 1952, em uma das escolas da Colônia Agrícola Nacional General Osório. Segundo Cattelan (2014), a cartilha que era utilizada como suporte pedagógico era a “Cartilha do Povo”. Segundo a autora, esta, produzida por Lourenço Filho, atingia uma camada social emergente, que era a classe popular rural. Além de expressar atividades com escopo no método tradicional de ensino (p. 204). A seguir, a cartilha representada.


Documento 1: Cartilha do Povo
Fonte: FILHO, Cartilha do Povo, 1947.
O documento a seguir representa atividades desenvolvidas em 1952 por alunos das escolas da CANGO, que expressam a forma com que foi utilizado como instrumento avaliativo pelo professor e produzido pelo aluno.  Quanto a esta questão, Vinão (2008), acrescenta que, os cadernos escolares representam informação, sobretudo, pela redação e composições escritas. Além disso, proporcionam pistas sobre os manuais que foram utilizados em sala de aula e o uso, pelo professor e pelos alunos.


Documento 2: Exercício de Língua Portuguesa e Matemática - 1952
Fonte: CEMESP, 2016.
O documento 2, apresenta um “cabeçalho” que discrimina o local e o ano em que foi desenvolvido, lê-se: “Colônia Agrícola Nacional General Osório – Rio “Jaracatiá”- 12 de dezembro de 1952”. Bem como, o nome da aluna e sua respectiva série, 1º ano. As atividades possivelmente integram os chamados “Exames Finais”, que eram avaliações realizadas pelos alunos para ver se estavam aptos para serem conduzidos ao próximo ano, ou repeti-lo.
De acordo com o documento 2, foi possível perceber que o ensino da época, possívelmente apresentava resquícios da pedagogia tradicional, uma vez que esta baseava-se na repetição, “decoreba” e  memorização. Onde possívelmente as atividades são ditadas; ou cópias.
Pareceu-nos que a primeira linha feita á lápis, poderia ser a letra do professor, e a aluna solicitada a fazer a cópia dos mesmo; ou simplesmente requisitadas pelo professor. Ex: “Escreve o alfabeto completo” e/ou “escreva os numerais de 1 a 10”. Percebe-se por meio das rasuras e no desgaste da folha que a aluna ficou em dúvida em alguns momentos, e que o erro permaneceu em alguns casos. Certamente a aluna não estava alfabetizada.
No documento, ainda, é possível observar, fragmentos de possíveis correções efetuadas e nota 3 (três), possívelmente 30 (trinta) em uma escala de 0 a 10, emitida pelo professor, juntamente com uma assinatura em caneta na margem superior. Conforme o documento 1, percebemos que o professor usou o método de repetição para que o aluno desenvolvesse assim o aprendizado. Com o exercício proposto pelo educador, o aluno acaba decorando o delineado das letras e números.
Segundo Vinão (2008) os cadernos representam o uso da escrita e do espaço gráfico, pelo qual as sucessivas gerações, assimilaram e aprenderam as pautas reguladoras deste método.
Assim, buscamos outra fonte de pesquisa para poder analisar como era o ensino nos anos 1952 e na atualidade, visando melhor compreender o processo de evolução do ensino. Através da análise feita nas atividades realizadas pelos alunos do 1°, 2° e 5°ano do ensino fundamental dos anos 2015/16 foi possível perceber o quão semelhante são as atividades com o ensino de 1952, em Francisco Beltrão.

Documento 3:  Atividade desenvolvida em 2015.
Fonte: Aluno A, 1°ano do 1°ciclo, 2015.
Podemos perceber que a mesma metodologia utilizada pelos professores a 64 anos atrás (cabeçalho, repetição de numerais etc) ainda é utilizada pelos educadores da atualidade. Mesmo hoje, com uma nova pedagogia em vigor, as metodologias de ensino continuam baseadas no tradicionalismo, no qual os alunos precisam decorrar, treinar a escrita para aprender.
Segundo Azevedo (2013), o ensino:
[...] tem se pautado na mera transmissão de conhecimentos, na ênfase á preparação instrumental do professor privilegiando a transmissão/recepção de conhecimentos teóricos descontextualizados e o desenvolvimento de atividades manuais [...] de forma descontextualizada, sendo os futuros professores normalmente submetidos a um modelo de reprodução acrítica dos ensinamentos de seus formadores. (p.69-70).
Levando em consideração a citação acima, percebemos que mesmo estando, a escola, “adepta” a Pedagogia Histórico-Crítica, esta não se efetiva na prática dos exercícios. E ainda normatizamos na produção dos materiais escolares atuais, alguns elementos da pedagogia tradicional. Principalmente no que compete a alfabetização e letramento.
Sendo assim, o que nos chama a atenção nos documentos 2 e 3, é que, as atividades desenvolvidas no ano de 1952, são as mesmas dos anos atuais. Em sua organização, método e possivelmente finalidade.
Segundo Saviani (2009), a mudança dessas perspectivas
Parte-se da crítica á pedagogia tradicional (pedagogia bancária), caracterizada pela passividade, transmissão de conteúdos, memorização, verbalismo etc. E advoga-se uma pedagogia ativa, centrada na iniciativa dos alunos, no diálogo (relação dialógica), na troca de conhecimentos. (p. 61).
A partir destas informações acreditamos que uma mesma atividade, ou que apresente o mesmo objetivo, pode sim ser desenvolvida por vários anos, pois se ela apresenta um resultado significativo, é porque ainda pode ser desenvolvida.
A breve análise documental, nos permite pensar sobre a produção do conhecimento e as complexidades do ensino. Que possuem uma história, e que esta ainda se materializa nos dias atuais.

Referências:
AZEVEDO, O. H. H. Educação Infantil e formação de professores: para além da separação cuidar-educar.1 ed. Sçao Paulo:Unesp,2013.
CATTELAN, Carla. Educação rural no município de Francisco Beltrão entre 1948 a 1981: a escola multisseriada.Dissertação de Mestrado, p. 249 Francisco Beltrão, 2014.
FILHO, Lourenço. Cartilha do Povo: para ensinar ler rapidamente. 156 edição. São paulo, 1947.
SAVIANI, D. Escola e Democracia. 41 ed. Campinas, SP: Autores associados, 2009

VINÃO, Antônio. Os cadernos escolares como fonte histórica: aspectos metodológicos e historiográficos. In: MIGNOT, Ana C. V. (Org.). Cadernos à vista: escola, memória e cultura escrita. Rio de Janeiro, RJ: EDUERJ, p. 15-29, 2008.

Um comentário:

  1. Primeiramente, parabéns pela boa condução do texto e análise das fontes. É intrigante que esse modelo de alfabetização 'bancária', como criticava Paulo Freire a educação da sua época, ainda mantenha resquícios nos nossos dias. Principalmente diante da grande contribuição do educador pernambucano. Gostaria de saber se vocês encontraram, na literatura, ou descobriram por meio da pesquisa, as causas dessa permanência. Ou seja, visto que a identificação do fator causador é importante para que melhoremos do quadro, foram identificados os fatores que têm causado a manutenção desse modelo "bancário"?

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