Carlos Eduardo Ströher
Prof. Ass. FEEVALE
Este texto propõe, com o auxílio da mitologia grega, desenrolar um fio de Ariadne pelo percurso historiográfico do ensino de História perguntando: que histórias se ensinaram e se ensinam ainda nas salas de aula? Que saberes e fazeres estão aí implicados?
Se entender a História que se ensina na escola, por um lado, exige compreender a relação desta com o conhecimento histórico produzido em meios acadêmicos, por outro, evidencia que é de fundamental importância a figura do professor que “traduz” a narrativa histórica em sala de aula. Focamos, então, no protagonista desta história, o professor. E são algumas das narrativas e dos personagens mitológicos que farão o papel de Ariadne no percurso do labirinto do ensino da história, o fio condutor de uma história que quer produzir-se ao mesmo tempo em que é contada.
Zeus e o professor historicista
Zeus é a divindade da mitologia grega que termina com o reinado dos Titãs ao armar um ardiloso plano contra o próprio pai, Cronos, que engolia seus próprios filhos para evitar que um deles o destronasse. As batalhas entre as divindades cessam no momento em que Zeus e os demais deuses do Olimpo tomam o poder, imobilizando os inimigos e reinstaurando a ordem.
O deus Zeus acredita que uma ordem justa é viável e luta para concretizá-la. O professor Zeus coordena a disposição das coisas, classifica, esquematiza e cataloga o conhecimento para se tornar História. É possível, então, fazer uma analogia aos historiadores do século XIX, que buscavam desvincular a História do seu caráter religioso.
A partir da Revolução Francesa, a organização de sistemas públicos de ensino visava atender aos objetivos de disciplinamento e de controle das populações, formando cidadãos adequados ao sistema socioeconômico capitalista. Tal estratégia passava pelo fortalecimento das identidades nacionais e a disciplina histórica tinha um papel fundamental nisso. A História, enquanto campo de conhecimento, se moldou, sistematizando os métodos de investigação e adquirindo os contornos de ciência.
O processo de afirmação das nacionalidades e a legitimação dos poderes políticos garantiram uma proeminência da disciplina de História no espaço escolar, pois esta tratava de mostrar às crianças e aos jovens o passado glorioso de sua nação, os grandes heróis e seus feitos extraordinários. Isto ocorreu durante o século XIX, concomitantemente na Europa e nas nações recém-emancipadas da América, que precisavam construir suas identidades enquanto nações, forjando um passado inteligível e de acordo com os interesses das elites locais.
Esse método de escrita da História utiliza como fonte os documentos, sendo considerados como tais apenas os ditos “oficiais” – atas, decretos, leis, mandatos – proferidos por indivíduos significativos – políticos, generais, reis. Cabe ao historiador científico resgatar os documentos do passado e realizar a sua identificação, classificação e ordenação de acordo com critérios neutros e isentos.
Tal métier investigativo, descrito e conhecido como historicismo, está intimamente relacionado à corrente filosófica positivista, fundada por August Comte. O positivismo tem em sua base o evolucionismo de Darwin e acredita em que as sociedades evoluem até chegar à ciência. Para que ocorra o progresso, é de fundamental importância o estabelecimento da ordem.
No Brasil, a missão de elaborar uma história nacional pós-independência coube ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). Em termos curriculares, reproduzia-se o modelo quatripartitefrancês e a História do Brasil ainda era escassa, pois carecia de material e metodologia que a orientasse.
No período republicano, a vinculação da disciplina de História com a responsabilidade de formar cidadãos e incutir nestes os sentimentos de civismo e nacionalidade permaneceu, especialmente durante o primeiro governo de Getúlio Vargas e na década de 1960, nos governos militares, quando a educação pública e os conteúdos da área das Ciências Humanas foram alvo de visível vigilância. A História, assim, seguiu atrelada às concepções tradicionais do historicismo – grandes personagens, datas comemorativas e a História como ciência do passado.
A ideia de uma História que privilegia a manutenção da ordem “cósmica” remete a um Zeus que tem senso de justiça, que se considera superior aos demais. Ele idolatra o conhecimento histórico e vê nele somente uma verdade, a sua. Acredita fielmente na sua capacidade de interpretação dos fatos, na sua clarividência histórica.
Héracles e o professor materialista histórico
Héracles ou Hércules, para os romanos, não é um deus, como seu pai Zeus, mas um herói ou semideus, pois é filho de uma mortal, Alcmena. Realizador de feitos excepcionais, com uma força incrível, uma coragem infalível e um fabuloso senso de justiça, Héracles é aquele que deu continuidade à tarefa de Zeus, eliminando os seres monstruosos que perturbavam a harmonia do mundo (FERRY, 2012, p. 277). Os duelos a favor da justiça empreendidos por Héracles também são os que motivam o professor materialista histórico. Seu objetivo é “consertar” os erros do passado, ajustando o mundo ao seu olhar.
As bases do materialismo histórico foram elaboradas por Karl Marx caracterizam o trabalho como o elemento diferencial da humanidade em relação à natureza, percebendo que é nas relações sociais e de produção que se encontram as chaves da inteligibilidade do processo histórico. As condições materiais de existência em sociedade somente são possíveis através da produção dos meios que permitem ao ser humano satisfazer as suas necessidades.
Ao analisar o funcionamento da sociedade capitalista moderna em sua obra-prima O Capital, Marx inaugurou uma leitura economicista da História por seus seguidores – e em alguns aspectos reducionista –, privilegiando as relações entre as instâncias infra e superestruturais. As referências teóricas que alcançaram o professor materialista histórico centraram-se na utilização de uma cronologia narrada através da evolução dos modos de produção, na luta de classes e no antagonismo dominador/dominado.
O professor materialista histórico confrontou um ensino moldado pelo colega historicista, apoiado por um regime político fechado e foi buscando, pouco a pouco, espaço para concretizar os seus ideais. Somente em meados dos anos 1980 – concomitantemente ao processo de abertura política e redemocratização brasileira – novas perspectivas para o ensino de História se tornaram alvo de discussões, através de congressos, simpósios e encontros organizados por grupos ligados aos meios acadêmicos, como a ANPUH. As disciplinas de História e Geografia voltaram a ser autônomas e independentes, garantindo o retorno de discussões conceituais e metodológicas.
Enquanto Héracles batalha contra os castigos que lhe foram impostos, a luta do professor materialista histórico é para romper com as dominações exercidas pelos detentores dos meios de produção sobre os submetidos ao sistema capitalista de exploração.
Antígona e o professor dos Annales
Antígona é o epílogo daquela que é considerada a maior tragédia grega, Édipo. É também o nome da filha do rei, que teve o destino desgraçado por uma série de infortúnios: matar o próprio pai, Laio, e cometer incesto com sua mãe, Jocasta. Já Antígona enfrenta o dilema enterrar o corpo do irmão, Polinice, ou seguir as ordens de seu tio, Creonte, que proibia tal atitude.
Assim como Antígona, que age contingencialmente diante de evidências, desobedecendo às leis do passado e da tradição, o historiador do Annales quer romper com as teorias teleológicas do século XIX e revolucionar a narrativa histórica, introduzindo os aspectos cotidianos do ser humano no espaço em que prevaleciam as estruturas sociais, políticas e econômicas.
Entre o final das décadas de 1980 e o início da década de 1990, justamente quando os modelos socialistas mundiais ruíram, as propostas baseadas no materialismo histórico passaram a dividir a atenção com outras influências historiográficas. A principal delas foi a chamada “nova história”, ligada à renovação historiográfica francesa que vinha ocorrendo desde meados do século XX, através da chamada Escola dos Annales.
Entre as diversas críticas e rupturas ensejadas por esse movimento historiográfico, está a chamada revolução documental, questionando a interpretação historicista que estabelecia o documento como sinônimo de prova escrita, de confirmação de um passado com um discurso único e definitivo. Os precursores insistiam tanto na ampliação da noção de documento, incentivando os historiadores a buscarem novas fontes quando as escritas não fossem suficientes e duvidosas. Ao ampliar o leque de ferramentas de interpretação, a História deixa de ter o aspecto de uma via de direção única e se configura como uma rede, um feixe de possibilidades e de interpretações e que pode se entrecruzar com outros tipos de discursos.
As concepções fundamentadas na crítica ao documento permitiram a incorporação de outras tendências historiográficas, como a história das mentalidades e do cotidiano. No contexto brasileiro, no final dos anos 1990, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s) lançaram a proposta de transformação dos conteúdos organizados de forma linear em eixos, privilegiando a história cultural a partir de temáticas de estudo. As editoras apressaram-se em produzir obras dentro desta temática, mas encontraram resistências entre os professores, que preferiam aqueles que adotavam o modelo antigo. Assim, as propostas diferentes tiveram baixa vendagem e foram preteridas por outras, que até se diziam inovadoras, mas não o eram tanto assim.
O professor dos Annales revolucionou o caminho da escrita historiográfica, mas sua trajetória passou a largo pelas escolas. Tal qual Antígona, agiu livremente, por sua vontade, lutando por aquilo em que acreditava, convicto de seus perigos e do julgamento fortuito de seus atos.
Referências:
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MEINERZ, Carla Beatriz. Ensino de História: a relação pedagógica existente em nossas práticas. In: Ensino de História: desafios contemporâneos. BARROSO, Vera Lúcia Maciel [et al.] (orgs.). Porto Alegre: EST: EXCLAMAÇÃO: ANPUH/RS, 2010, p. 203-212.
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Qual o sentido educativo do mito no período Clássico da Grécia Antiga?
ResponderExcluirQual a visão que está sendo construída através destes saberes mitológicos gregos e o peso para a história estudada das correntes historiográficas nos dias atuais ?
ResponderExcluirMaria Elma de Lima Agostinho
A observação de um objeto de estudo, a partir de pontos de vista diferentes, possibilita uma maior compreensão do mesmo, das suas particularidades e peculiaridades, e quando este objeto se trata do ser humano, mais necessário é este olhar por pontos diferentes. A mitologia grega, com seus deuses, semi deuses e heróis donos de feitos grandiosos, nos traz informações de como se construía a identidade dos gregos,como através do conto do feito de grandes personagens da história, se passam valores e inspira-se a coragem, a mitologia é importante para se entender estes aspectos culturais de determinada sociedade. Mas como é nomeada de "mitologia", ou seja,algo que nós consideramos como não sendo verdade, temos um receio de trabalhar com elementos de nossa cultura, e de outras culturas ditas importantes para a humanidade, por serem elas não comprovadas, ou mesmo consideradas irreais. Como lidar com isto, como transpor esta barreira que encontra-se sobre a mitologia, para que possamos utilizá-la no ensino?
ResponderExcluirGerfeson Carvalho dos Santos
Olá, Silvana, Maria Elma e Gerfeson,
ResponderExcluiras analogias mitológicas estão presentes nesse texto como uma espécie de provocação, visto que constituem-se como narrativas produzidas por povos antigos - no caso, os gregos - sem os paradigmas modernos de ciência e de "verdade". Assim, contrapõem-se ao que boa parte das correntes historiográficas ao longo dos séculos XIX e XX buscaram fazer: construir a história como uma narrativa coerente, uniforme, universal e regida por leis imutáveis. Cabe ao professor, em sala de aula, ser esse agente da desconfiança, do desconforto, do questionamento das histórias dos grandes personagens e estruturas, quebrando o solo das certezas e embaralhando o discurso apegado ao fio de Ariadne, que busca um sentido teleológico em tudo. Em função do espaço desa comunicação, tive que "enxugar" vários trechos do meu texto. Sugiro a leitura da minha dissertação, intitulada Intempestivo e infame: a História na perspectiva foucaultiana, disponível em: https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/98594/000922511.pdf?sequence=1.
Abraços, Carlos Eduardo.
Prezado Carlos!
ResponderExcluirAs analogias são ótimas! O texto muito bem escrito!
Em sala de aula, o historiador/professor que age como Antígona, encontra certas barreiras. Muitas vezes, tem a sua disposição materiais construídos a partir de tendências historiográficas que são consideradas "ultrapassadas". Você mesmo coloca que a revolução historiográfica passou "a largo das escolas". De um modo geral, como se pode mudar isso?
Abraços,
Cláudia Masiero