BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE O PERFIL DO ALUNADO DAS ESCOLAS DA CANGO (1940-1950): ANÁLISE DAS FICHAS CADASTRAIS
Carla Cattelan
Dnt. UFSC
O presente trabalho é parte da compilação da dissertação de Mestrado em Educação, que estudou o Ensino Multisseriado e a educação primária no município de Francisco Beltrão, 1948 a 1981. O trabalho também estuda a organização e assentamento dos colonos pela CANGO (Colônia Agrícola Nacional General Osório) e a educação primária desenvolvida a partir de 1948 (CATTELAN, 2014).
Por meio da política de colonização dos espaços demográficos, intitulada “Marcha para o Oeste”, criada por Getúlio Vargas, foram instaladas Colônias Agrícolas Nacionais em todo o Brasil, nas terras pertencentes a União. Com objetivo de assentar colonos vindos de diversas regiões do país.
A CANGO foi instalada em 1948 em Vila Marrecas, atual Francisco Beltrão. Os colonos vinham de diferentes regiões do Brasil em busca de melhores condições de vida e trabalho para suas famílias. A CANGO, órgão federal, mantida pelo Ministério da Agricultura, cadastrava os colonos e suas famílias que chegavam a sede da Colônia. Os oferecia o lote de terra, sementes, ferramentas e até a madeira para o inicio de sua moradia. Além dos serviços médicos, odontológicos e educacionais.
O Trânsito na Colônia era controlado, sendo uma ponte coberta o único acesso. Esta ficava interditada nos dias de chuva para os veículos automotores e os caminhões contendo móveis e utensílios que só adentravam a Colônia quando comprovado seu destino.
Da mesma forma que as famílias de colonos eram cadastradas ao entrar na Colônia, os filhos em idade escolar também eram cadastrados para frequentar as escolas que a Colônia criava segundo demanda.
Ao analisar as fichas de nº 1 a nº 79 (Documento nº 01), salvas aleatoriamente. Foram analisadas 36 (trinta e seis) fichas, sendo que somente estas estavam disponíveis na Secretaria de Cultura - Museu Histórico de Francisco Beltrão. São elas por nº: 1, 2, 3, 13, 14, 19, 20, 22, 23, 24, 29, 31, 33, 34, 36, 37, 41, 42, 47, 48, 50, 53, 54, 55, 59, 60, 61, 62, 70, 63, 68, 69, 70, 74, 75 e 79. Neste interim, pude perceber que a origem dos alunos, bem como das famílias eram de cidades localizadas no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. A faixa etária que ingressavam nas escolas da Colônia era entre 7 (sete) e 16 (dezesseis) anos.
Para identificar as crianças em idade escolar, a CANGO, da mesma forma que credenciava os posseiros que adentravam a Colônia, passou a credenciar os filhos dos posseiros que se encontravam em idade escolar, em fichas devidamente numeradas, como mostra o documento nº 01. A ficha destacada é do primeiro aluno credenciado na CANGO em 3 de maio de 1948, a primeira aula foi ministrada pela Professora Italina Zancan, dia 05 de maio de 1948, na sede da Colônia. A ficha mostra os dados questionados pela Colônia ao ingresso do aluno. A avaliação dentária e as questões voltadas à saúde eram feitas pelo dentista e médico da Colônia.
A CANGO, mediante análise das fichas de cadastramento escolar, fazia uma descrição minuciosa do aluno ao ingressar no processo educativo. Eram colhidas informações sobre a saúde bucal, vacinação, doenças, controle de peso e altura, características corporais e assistência escolar. Isso porque, durante o período que estava na Colônia à criança recebia toda a assistência a saúde, bem como, toda a sua família.
Documento nº 01: Ficha escolar da primeira aluna cadastrada pela CANGO (1948) – (frente e verso)
Fonte: Acervo Memorial Histórico de Francisco Beltrão.
O quadro a seguir exemplifica, segundo as fichas analisadas, os dados levantados de cada aluno credenciado pela CANGO.
Quadro nº 01: Características dos primeiros alunos matriculados nas escolas da CANGO – 1948
| Nº | Aluno (a) | Cor | Cabelos | Olhos | Dentes | Vacinas | Saúde |
| 01 | Adir Julia Pimental | Branca | Castanho liso | Castanhos | Falta: canino inf. esquerdo | Contra: varíola e tifo-paratifo | Boa |
| 02 | Antônio Derval Araujo | Branca | Castanho escuro liso | Castanhos | Completos | Contra: tifo-paratifo | Sarampo, parotidite epidêmica |
| 03 | Arminda Julia Pimental | Branca | Castanho liso | Castanhos | Completos | Contra: varíola e tifo-paratifo | Sarampo |
| 13 | Leonaldo Alves da Silva | Morena | Castanho | Castanhos | Completos | Contra: varíola e tifo-paratifo | Coqueluche |
| 14 | Luciana Tomacheski | Branca | Loiro liso | Esverdeados | Falta: caninos inferiores | Contra: tifo-paratifo | Sarampo |
| 19 | Salustiano Lima dos Santos | Morena | Pretos | Castanhos | Completos | Contra: varíola e tifo-paratifo | Coqueluche e sarampo |
| 20 | Sebastião Fernandes da Silva | Morena | Preto | Castanhos | Completos | Contra: varíola e tifo-paratifo | Coqueluche e sarampo |
| 22 | Teofilo da Silva | Branco | Castanho | Esverdeados | Completos | Contra: tifo-paratifo | Sarampo, coqueluche e varíola |
| 23 | Arina Neves Oliveira | Branca | Castanho | Castanhos | Completos | Contra: varíola e tifo-paratifo | Coqueluche |
| 24 | Arêo Neves Oliveira | Branca | Castanho liso | Castanhos | Completos | Contra: varíola e tifo-paratifo | Coqueluche |
| 29 | Wando Thomacheski | Branca | Loiro liso | Esverdeados | Completos | Contra: tifo-paratifo | Sarampo |
| 31 | Antônio Pires | Parda | Preto liso | Castanhos | Falta: canino inf. Direito | Contra: varíola e tifo-paratifo | Boa |
| 33 | Ana Tereza de Melo Thimoteo | Branca | Castanho | Castanhos | Completos | Contra: varíola e tifo-paratifo | Sarampo |
| 34 | Antônio Artidor Vieira | Branco | Castanho | Castanhos | .......... | Contra: tifo-paratifo | Boa |
| 36 | Benedita Alves da Silva | Morena | Preto | Castanhos | Completos | Contra: varíola e tifo-paratifo | Coqueluche |
| 37 | Bonifácio Rodrigues Ferreira | Branca | Castanho liso | .......... | Completos | Contra: tifo-paratifo | Coqueluche |
| 41 | Damazio Gonçalves Filho | Clara | Castanho | Castanhos | Falta: molar superior | Contra: varíola e tifo-paratifo | Coqueluche e sarampo |
| 42 | Domina Carneiro | Morena | Preto | Castanhos | Completos | Contra: varíola e tifo-paratifo | Sarampo e coqueluche |
| 47 | Jeronimo Vieira | Branca | Castanho | Castanhos | Em substituição | Contra: tifo-paratifo | Sarampo, coqueluche e varíola |
| 48 | José Cordeiro dos Santos | Branca | Castanho liso | Castanhos | Completos | Contra: varíola e tifo-paratifo | Sarampo e varíola |
| 50 | João Isabel | Branco | Preto liso | Castanhos | Completos | Contra: varíola e tifo-paratifo | Sarampo, coqueluche e varíola |
| 53 | João Freitas | Morena | Pretos | Castanhos | Completos | | Coqueluche |
| 54 | Jovina Alves da Silva | Morena | Pretos | Castanhos | Completos | Contra: varíola e tifo-paratifo | Coqueluche |
| 55 | Luiz de Almeida Lara | Branca | Castanho | Castanhos | Completos | Contra: tifo-paratifo | Sarampo |
| 59 | Otávio Germano Raldi | Branco | Castanho liso | Castanhos | Completos | Contra: varíola e tifo-paratifo | Sarampo |
| 60 | Otília Baches | Branca | Castanho | Castanhos | Completos | Contra: tifo-paratifo | Coqueluche |
| 61 | Rufino Arruda Gonçalves | Clara | Castanho | Castanhos | Completos | Contra: varíola e tifo-paratifo | Sarampo e coqueluche |
| 62 | Tereza Raldi | Branca | Castanho liso | Castanhos | Completos | Contra: varíola e tifo-paratifo | Sarampo e Coqueluche |
| 63 | Silvina Arruda Gonçalves | Clara | Loiro | .......... | Completos | Contra: varíola e tifo-paratifo | Sarampo e coqueluche |
| 68 | Pedro Chiruk | Branco | Loiro | Esverdeados | Falta: grandes molares | Contra: Varíola | Sarampo |
| 69 | Silvio Silveira | Branco | Castanho | Castanhos | Completos | Não foi | coqueluche |
| 70 | Resineles Silveira | Branca | Castanho | Castanhos | Completos | Não foi | Coqueluche e sarampo |
| 74 | Darcy Honing | Branco | Loiro | Azuis | Completos | Não foi | Catapora |
| 75 | Asvaldina Rodrigues de Campos | Branca | Castanho | Castanhos | Completos | Contra: varíola | Coqueluche |
| 79 | Begair Carneiro Lobo | .......... | .......... | .......... | .......... | .......... | .......... |
Fonte: Fichas Cadastrais, Acervo Memorial Histórico de Francisco Beltrão, 2014.
Mediante o quadro apresentado anteriormente, como panorama geral dos primeiros alunos credenciados pela CANGO, foi possível perceber as características gerais das crianças que aqui viviam. A maioria das crianças eram morenas e apresentavam cabelos e olhos castanhos. Muitas crianças tinham contraído algum tipo de doença infecto contagiosa na infância, principalmente coqueluche, sarampo e Varíola. Praticamente todas receberam da Colônia vacina contra varíola e tifo-paratifo. Quanto à dentição, apresentavam dentes completos, em exceção de alguns.
Segundo análise das fichas, a maioria das crianças não tinha frequentado uma escola, salvo alguns, que vinham de cidades que já tinham estruturado o ensino primário. A CANGO disponibilizava materiais às crianças, tais como: caderno, lápis, cartilha e tabuada. Foi possível perceber que a CANGO organizou e distribuiu material escolar já no ato de cadastro dos alunos.
Ainda, as crianças que frequentavam as escolas da CANGO, não eram provenientes somente da Colônia, mas também da pequena Vila Marrecas que se estruturava no lado oposto do rio Marrecas (lado direito). Ao analisar este processo, e conforme afirmação de Martins (1986, p. 20), a CANGO construiu uma escola na Vila Marrecas em 1948. Visto que na época não existia nenhuma escola na região, nem mantida pelo Estado e nem pelo município de Clevelândia, do qual a Vila Marrecas fazia parte. Isso nos leva a pensar, que a CANGO assumiu bem mais do que o compromisso com a Colônia, pois ofereceu às crianças da Vila Marrecas a oportunidade da instrução e, isso facilitou mais tarde, enquanto município de Francisco Beltrão, a estruturar as suas próprias escolas primárias.
Referências
CATTELAN, Carla. Educação rural no município de Francisco Beltrão entre 1948 a 1981: a escola multisseriadas. Francisco Beltrão-PR: Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE, 2014. (Dissertação de Mestrado em Educação).
MARTINS, Rubens S. Entre Jagunços e Posseiros. 1ª ed. Curitiba: 1986.
MINISTÉRIO DA AGRICULTURA. Ficha de Cadastro: por nº: 1, 2, 3, 13, 14, 19, 20, 22, 23, 24, 29, 31, 33, 34, 36, 37, 41, 42, 47, 48, 50, 53, 54, 55, 59, 60, 61, 62, 70, 63, 68, 69, 70, 74, 75 e 79. Acervo Museu Histórico de Francisco Beltrão, 2013.

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ResponderExcluirOs colonos vinham de diversas partes do país, e ao chegar recebiam diversos benefícios como lote, sementes, ferramentas, entre outros... Caso eles quisessem mudar de cidade ou deixar a colônia, qual eram os acordos para eles deixar a colônia?
ResponderExcluirAs turmas eram multisseriadas, havia apenas uma escola no bairro CANGO. Era uma sala para todos os alunos da colônia? Sabe me dizer como ocorria a distribuição das turmas e os horários de aula?
ATT,
Valéria Cristina Turmina
Oi Valéria, obrigada pela contribuição. Os migrantes adentravam a colônia cheios de expectativas, pois, vinham em busca de uma vida melhor. A Colônia oferecia lotes de terras gratuitos, dava sementes e ferramentas para o plantio, e ainda madeira para a construção da morada. Não tenho registros sobre a saída de alguma família da colônia.
ExcluirAgradecida.
Carla Cattelan
Oi Carla, tudo bom??
ResponderExcluirGostaria de saber, dentro da perspectiva do seu trabalho, para além do fato de a CANGO ter feito o papel do Estado naquele contexto específico do qual você citou, é possível entender aquele tipo de ensino como uma educação profissional, instrução básica para as crianças pobres do contexto falado??
No início da Colônia, esta desempenhou um papel mais assistencialista, destinado as crianças e as famílias migrantes. E se utilizou das escolas para objetivar seu projeto de colonização. Quanto o ruralismo disseminado em projetos políticos e pedagógicos para a educação nas colônias e o lugar que a escola ocupou, não só da CANGO, mas das 8 grandes colônias que foram criadas no Brasil na década de 1940, este é meu objeto de pesquisa do doutorado, que esta em fase de investigação e pesquisa.
ExcluirAgradeço a contribuição.
Carla Cattelan
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ResponderExcluirBoa noite.
ResponderExcluirA parte da sua dissertação me chamou a atenção pelo fato de ser semelhante ao meu trabalho de graduação que em um de seus objetivos, tratava sobre a análise documental de alunos. Notório é a quantidade de informações que se pode ter, analisar, problematizar e por fim refletir e que está relacionada a determinado fato histórico.
Um método utilizado no meu trabalho foi a da Prosopografia, já ouviu falar? Não seria esse ao qual a parte da sua pesquisa se desenvolveu??
Rodolpho Luiz Almeida Vieira
Agradeço a contribuição. Não conheço o método da prosopografia. Mas tenho curiosidade em saber mais sobre. O texto é um fragmento da pesquisa relacionada a História da Educação, que seguiu outro método de análise, atrelado a demais fontes documentais, legislação e relatos orais.
ExcluirInteressante o trabalho.
ResponderExcluirCaso queira continuar estudando o tema, creio que os trabalhos da Heloísa Helena Pimenta Rocha poderiam te ajudar.
Conhece a autora?
Abraços.
Obrigada pela contribuição. Não Conhecia a autora ainda, mas instigou a leitura. Agradecida pela indicação.
ExcluirCarla Cattela
Boa tarde Carla Cattelan, parabéns pelo texto e a interessante pesquisa! Tenho interesse por documentos oriundos de instituições educacionais, os tipos de discursos e as representações apresentadas para os sujeitos que vivencia o seu cotidiano. Assim, gostaria de saber no âmbito da sua pesquisa, quais representações culturais podem ser identificadas para as crianças que frequentavam as escolas da CANGO, visto que trata-se de um público oriundo de diversas regiões do país.
ResponderExcluirAtenciosamente,
Lucilvana Ferreira Barros