MÚSICOS NEGROS E PARDOS NO BRASIL DO SÉCULO XVIII
Artur Rômulo Batista Henrique
UNIVERSO
A música no século XVIII estava ligada à expansão da igreja e às solenidades oficiais da coroa portuguesa. A importância musical como linguagem e expressão foram fundamentais para a alegoria do poder real, demonstrando a fé e a subserviência presentes na mentalidade social da época. A figura do monarca era reverenciada com ares opulentos servindo-se de Marchas, hinos e temas ritualísticos que marcavam as festividades e os grandes êxitos da dinastia real. Tais atividades eram compostas por mestres de música e executadas pelas orquestras oficiais, as quais contavam com a presença dos melhores artífices do reino e renomados músicos internacionais. Esses grupos artísticos atuavam de forma exclusiva para a corte, em sessões privadas e sarais particulares, realizando apresentações públicas conforme fossem designados para a aparição real ou em comemorações oficiais.
A música sacra era de suma importância para os meios sociais, pois sua execução era diária e popular. Tal característica tornava a igreja o principal veículo de entretenimento e arte para a população, fazendo do culto religioso um evento social.
Embora fossem precários os meios para a educação e formação de músicos nos trópicos, havia uma procura incessante e um campo de atuação em expansão que poderia desencadear em algum tipo de notoriedade para esses artífices. Logo, tais funções passavam a ser valorizadas, pois, alocavam indivíduos das classes populares nos coros das igrejas executando uma função de extrema importância, que despertava o fascínio dos espectadores, legando o reconhecimento profissional nos meios locais.
A aprendizagem musical exigia dedicação, o domínio da língua latina - a leitura e a escrita, o conhecimento da liturgia religiosa e a teoria musical. Devido a essa demanda, os professores de música tinham uma função primordial dentro dos meios urbanos do século XVIII. Tais investimentos eram valorizados, pois o conhecimento dessas disciplinas facilitavam a funcionalidade desses artistas que poderiam desempenhar outras atividades profissionais nas instituições em que atuavam. A expansão da igreja abriu portas para essas funções, pois inúmeras atividades na divisão dos grupos dentro da igreja exigia a leitura e a escrita, além do conhecimento da liturgia. Essas atribuições iam desde as mesas das irmandades até as ordenações sacerdotais.
O empreendimento da música e a falta da mão de obra para esses cargos nos coros e orquestras das igrejas, tornava a aprendizagem musical uma promissora oportunidade de emprego. A falta de artistas europeus para essas funções levava a pardos, pretos livres e brancos pobres a verem a possibilidade de ascensão social por meio dessa funcionalidade. Em alguns casos até mesmo utilizar a música como ponto de partida para o sacerdócio.
O ingresso de pretos e pardos no clero da América portuguesa era uma realidade divergente ao princípio europeu de pureza de sangue. Os estatutos de limpeza de sangue na Europa ibérica mantinham um regimento acirrado quanto às ordenações sacerdotais, de acordo com o estatuto de Toledo.
O estatuto de Toledo, de 1449 que impedia os recém-convertidos à fé católica e considerados de “sangue infecto” (judeus, mouros e negros) de ocuparem os cargos municipal, apesar de seu limitado alcance local, é considerado o precursor dos estatutos de limpeza de sangue na Península Ibérica. (OLIVAL. Fernanda. 2004, p. 151)
Em Portugal não se sabe ao certo a data de sua vigência, embora, haja vista ocorrências de reclamações ao rei d. João III. Nas misericórdias, nos colégios, nas corporações de ofícios e também quanto aos casamentos, a vigência deste estatuto vigorou desde o século XVI. Os interditos, de acordo com Fernanda Olival, foram preservados até o século XVIII. (OLIVAL. Fernanda, 2004, pp. 151-182)
O provimento de cargos e ordenações eclesiásticas no ultramar, não se flexibilizavam perante aos regimentos da constituição do arcebispado da Bahia. Em tais regimentos os habilitantes deveriam ser: “sujeitos dignos e honrados, e, se informará pelos parochos, donde os sobreditos forem naturaes, secretamente da limpeza de sangue do habilitando, vida e costume, da limpeza de sangue de seos paes, e avós”. (Constituições... 1764 - Liv I, tit. L: 87; Liv I, tit. VI: 76)
Casos de ordenações do clero mestiço e preto eram possíveis, devido à própria intenção da igreja de salvar as almas e de admitir a conversão de cristãos novos na comunidade católica. No entanto, era necessário provar boa conduta moral, religiosa, além de comprovações de terras. As influências sociais obtidas por meio de redes clientelares possivelmente contribuíram para a admissão do clero mestiço colonial. De acordo com Charles Boxer: “a discriminação racial não era muito forte no início da expansão marítima (contra indianos e africanos), mas eles não demoraram a surgir ainda que sua intensidade variasse no tempo e espaço". (BOXER. Charles. R. 2007, p. 15). Conforme Caio Prado Jr:
Os mestiços são numerosos no clero brasileiro. A Igreja sempre honrou no Brasil sua tradição democrática, a maior força com que contou para a conquista espiritual no Ocidente. (...) Os candidatos ao estado eclesiástico que demonstrassem aptidões encontrava sempre amparo, e não faltava quem lhes custeasse os estudos, aqui ou na Europa. (PRADO. Jr. Caio, 1972, p. 279).
A admissão do clero negro foi substancialmente envolvida em relações de sociais, conforme a citação acima. A partir da capacidade e da vocação, encontrava-se o incentivo para o ingresso ao sacerdócio. Tais patrocínios, também possuíam seu peso dentro do universo imaginário religioso. O ato de custear o estudo de um clérigo, dentro de alguns âmbitos era também uma forma de colaborar com as obras sociais da igreja.
Os cargos de mestres e organistas tradicionalmente exercidos por sacerdotes eram mais facilmente obtidos devido ao conhecimento da língua latina e dos tempos litúrgicos. A tradição europeia de músicos padres, nas capelas, não obstante se fez presente nos trópicos. O considerável contingente de padres mestiços transpunha a união entre a música e o sacerdócio, utilizando a arte como veículo de salvação de almas e de ascensão social. David Appleby afirma: “durante o período colonial, o sacerdócio oferecia uma categoria favorável para um músico de igreja, além de uma boa aceitação social” (Appleby, David. 1985).
A busca pela adaptação social encontrou acolhimento nas obras sociais da igreja. Em termos, a instituição católica agregou a todos, sem distinguir livres de cativos, mantendo-os em funções delegadas a todas as condições sociais, por meio das irmandades e corporações de ofícios e não fechando as portas para os cristãos, sejam novos ou velhos. Desde que provado o mérito pelas redes de sociabilidade ou por vocação, se fizessem dignos de adentrar ao seu corpo eclesiástico.
A igreja católica no século XVIII promoveu a integração dos cristãos novos nos meios sociais, embora houvesse restrições legais e esses grupos sofressem descrédito por sua origem, as irmandades se encarregaram de assimilar tais indivíduos nos espaços religiosos. O culto dos santos negros, as irmandades designadas para a população mestiça e africana foi crucial para a sociabilidade desses novos integrantes da comunidade cristã. O próprio cotidiano religioso no qual se integravam dava o bojo para o compromisso da vivência e profissão de fé desses grupos.
Referências Bibliográficas
Fontes Históricas.
APEM, Habilitações de genere, Caixa 42
Cf. CÓDIGO DO DIREITO CANÔNICO. Can. 707, §1o E 2o. Ed. De Lorenzo Migueléz Dominguez ET alii. Madrid, La Editorial Católica, 1947
Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, Livro III, Título XXIX, Da obrigação de residirem nas igrejas todos os párocos, assim perpétuos, como anuais, § 537.
Bibliografia
APPLEBY, David. La música de Brasil. Cidade do México: Fondo de Cultura, 1985.
BOXER, C. R. O Império Colonial Português (1415-1825). Lisboa: Edições 70, 1981.
BOXER, Charles R. A igreja militante e a expansão ibérica: 1440-1770. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
CHAHON, Sérgio: Os convidados para a Ceia do Senhor, As Missas e a Vivência Leigas do Catolicismo na Cidade do Rio de Janeiro e Arredores (1750 – 1820). Ed. EDUSP. São Paulo. 2008.
HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. 5ª edição. Rio de Janeiro, Livraria José Olímpio Livraria. 1955.
OLIVAL, Fernanda e FIGUERÔA-REGO, João de: Cor da Pele, Distinções e Cargos: Portugal e espaços atlânticos portugueses (séculos XVI a XVIII). E, OLIVAL. Fernanda “Rigor e interesses: os estatutos de limpeza de sangue em Portugal”. Cadernos de Estudos Sefarditas, nº 4, 2004.
OLIVAL, Fernanda. As Ordens Militares e o Estado Moderno; Honra Mercê e Venalidade em Portugal (1641-1789). Lisboa: Estar, 2001.
OLIVAL. Fernanda, e MONTEIRO. Nuno Gonçalo: Mobilidade Social nas Carreiras Eclesiásticas em Portugal (1500-1820). Análise Social, Volume XXXVII. (165). 2003. 1213-1239.
PRADO JUNIOR, Caio. Formação do Brasil Contemporâneo: colônia. 12. ed. São Paulo: Brasiliense, 1972.
MÚSICOS NEGROS E PARDOS NO BRASIL DO SÉCULO XVIII
ResponderExcluirArtur Rômulo Batista Henrique
UNIVERSO
boa tarde? esses acontecimentos histórico podem nos dizer que o Brasil construiu para formar e ter uma historia da musica?
janyce Soares de oliveira
Olá, a história dos músicos nativos no século XVIII, está substancialmente ligada ao poder. Não houve uma intenção autônoma musical neste primeiro momento. A música estava ligada às grandes instituições no sentido de demonstrar a soberania monárquica ou divina. A música não possuía uma expressão própria longe dessas instituições tal como havia na Europa. O incentivo à música passou a ser melhor desenvolvido após a chegada da corte com a criação dos Teatros, da Capela Régia e de outras entidades que sob o aval real desenvolveram o panorama musical nos trópicos. A história da música nos trópicos do século XVIII não foi construída de forma intencional por exemplo como em Portugal com D, João V, que construiu a Capela Real em Mafra inspirado na Capela da corte papal em Roma. A música nativa nesse período era formada por músicos pardos, negros em sua maior parte que almejavam a ascender socialmente. Pela música poderiam tornar-se notáveis nos coros das igrejas e em festividades públicas. Muitos eram admitidos para suprir a falta e a carência de artífices europeus, assim também como foram admitidos pela igreja pelo mesmo motivo.
ExcluirTal construção começa a ocorrer a partir do século XIX. Espero ter respondido. Artur Rômulo Batista Henrique.
Boa Tarde Arthur,
ResponderExcluirUm belo estudo este que está desenvolvendo. É possível ter uma ideia do percentual de padres e músicos negros e pardos no Brasil (ou em Pernambuco) no século XVIII?
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ExcluirOlá Andréa, não há um número exato acerca do quantitativo dos músicos e padres negros nativos no século XVIII. Esta linha de pesquisa vem sendo desenvolvida e progredindo gradualmente concomitante a análise dos processos de genere no caso dos padres e de partituras e manuscritos musicais referente aos músicos. Nesse sentido infelizmente não temos a totalidade desses documentos, muitos documentos não resistiram a ação do tempo e à falta de preservação. Encontra-se uma documentação mais rica nesse âmbito a partir do século XIX devido às implementações da corte que promoviam uma maior comunicação por meio da imprensa, possibilitando maiores detalhes sobre os eventos musicais e sociais ocorridos. Obrigado pela participação
ExcluirÓtimo trabalho.Os negros começaram a ser inseridos na música,e no sacerdócio de forma que fossem aceitos socialmente.A igreja no inicio aceiram os negros no sacerdócio, como forma de caridade,salvar almas.Vc acha que ainda existe esse tipo de preconceito em relação a padres e músicos negros,alias a certas posições valorizadas em que negros ocupam no Brasil? Marjori Raine de Oliveira Gomes
ResponderExcluirOlá Marjori, sim o preconceito ele é uma realidade nos dias de hoje e infelizmente não temos a representatividade de negros em cargos altos em nossa sociedade. Porém quando tratamos dos negros no século XVIII, devemos levar em consideração que havia a escravidão no Brasil o que dificultava bastante o alcance desses indivíduos devido a sua condição social perante a hierarquização do século XVIII. Os pardos e negros eram impedidos de ocupar cargos públicos ou eclesiásticos, tais ordenações só foram possíveis devido a flexibilização na administração do Arcebispado da Bahia. Casos de Sé vacante e pela escassez de padres europeus.
Excluirboa tarde, sabemos que o país que vivemos é cheio de preconceito em relação a tudo, mas como este profissional pode também ter sua chance no mercado de trabalho, sem nenhuma restrição? e em que local ele possa exercer seu talento?
ResponderExcluirSim, o preconceito é uma realidade que tem sua origem na escravidão, porém no século XVIII o negro não era aceito pela sociedade sendo estigmatizado como inferior, logo só poderia alcançar um cargo por meio do "processo de genere" esse processo teoricamente avaliaria as condições para a habilitação desses artífices. As Irmandades religiosas promoviam a integração desses grupos nos eventos sociais e nas cerimônias religiosas. Possibilitando a participação com maior respaldo de uma organização religiosa.
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ResponderExcluirBoa noite, Artur. Muito interessante a sua pesquisa. Gostaria de saber um pouco mais onde vc conseguiu as fontes, porque elas foram pouco citadas e imagino que deve ter sido difícil encontrá-las por serem anterior ao XIX, e também uma outra pergunta: no século XVIII estavam alguns padres jesuítas, antes da expulsão de Pombal, ensinando música sacra e construção de instrumentos para índios convertidos nas reduções. Sei que o trabalho deles era mais isolado, mas vc saberia me dizer se houve algum tipo de influência dos jesuítas nessas comunidades católicas que aceitavam os negros e pardos? Obrigada!
ResponderExcluirOlá, nossa pesquisa se limitou a analisar alguns processos de generes no caso as consegui no arquivo público do estado do Maranhão, para exemplificar as ordenações de padres pardos e negros. O acervo de cleofe Person de Matos também serviu de base para os músicos negros e sua atuação junto a igreja. E utilizamos as legislações do período, as constituições Primeiras do arcebispado da Bahia e as Ordenações Filipinas afim de dialogar com os regimentos do Estado e da Igreja em referência à participação dos negros na produção musical e nas ordenações sacerdotais. Quanto ao trabalho dos Jesuítas eu não tenho referências indígenas por uma questão de foco mesmo. Entretanto houve uma atuação jesuítica com negros na fazenda real de santa cruz, após a chegada da corte no Rio de Janeiro. Espero ter ajudado. Obrigado pela participação
ExcluirQue maravilha este material!!!! Interessantíssimo!!
ResponderExcluirConseguiríamos identificar quais compositores foram evidenciados ou tornaram um padrão nesta época? outrossim, mesmo eles sendo inseridos neste mundo musical, eles mantinham uma tradição de sua forte música de escravidão? ...
Obrigado
Olá, boa noite! Sim, há fortes referenciais para a música nativa negra no século XVIII, as principais foram Emerico Lobo de Mesquita em Minas Gerais e o Padre José Maurício Nunes Garcia no Rio de Janeiro. Há por parte desses compositores sim, traços originais da música africana. Basta comparar tais composições à produção europeia contemporânea.
ResponderExcluirBoa tarde Artur!
ExcluirConheço a música dos compositores citados, são lindíssimas.
Obrigado poe esclarecer esta questão?!
Obrigado
Jônatas Fernandes Pereira
Ola, Artur Romulo! Parabens pelo texto. Na suas pesquisa, você localizou alguma fonte que trate da presença de negros transformados em "Castrati" no século XVIII? Essa prática que viria a se fazer presente no Rio com a vinda da família real em 1808, apesar de já estar em desuso em boa parte da Europa à época. As fontes localizadas do século XVIII apontam para a presença dos Castrati entre os músicos negros? Obrigado!
ResponderExcluirJanailson, boa tarde!
ResponderExcluirÓtima pergunta! rs
Artur, é possível que em dado momento o músico negro ganha seu espaço a ponto de ser solicitado para recitais particulares?
Mais uma vez, obrigado!
Olá, Artur!
ResponderExcluirTexto interessantíssimo!
Este texto compõe algum projeto de pesquisa seu em desenvolvimento ou já desenvolvido?
Gostaria de saber mais sobre o assunto. Buscarei algumas das obras de sua bibliografia, mas também gostaria de ler caso você tenha mais publicações suas sobre o tema.
Quais foram suas motivações para a escolha do tema e escrita?
PÂMELA KEITI BAENA
Primeiramente parabéns pelo excelente tema. Minha duvida é em relação as fontes que você usou, pois pretendo abordar um tema que envolve essa questão de Negros e Oficio, porém não encontrei tanta coisa relacionada a música aqui em Belém. Você acha que esse material pode ser mais encontrado no registro paroquial? Ou existe essa varição geográfica. Obrigado
ResponderExcluirJohn Lennon Lima e Silva
Bom dia. então no seculo XVIII existia uma mistura de raças negros, pardos, brancos, mulatos se reunião para dançar cantar suas musicas ?
ResponderExcluirBom dia. então no seculo XVIII existia uma mistura de raças negros, pardos, brancos, mulatos se reunião para dançar cantar suas musicas ?
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ResponderExcluirArtur, muito interessante essa questão.
ResponderExcluirNão tenho uma pergunta propriamente dita, apenas uma indicação, você conhece o trabalho de dissertação de Luiz Domingos "Cor, suor e som: Inserção social e prática musical no Recife (1789-1822)"? Acho que pode ajudar nas tuas pesquisas.
Estevam Machado