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Ana Paula da Silva Santos

HISTÓRIA E MEMÓRIA DA FAZENDA GRANDE DO RETIRO- SALVADOR-BA
Ana Paula da Silva Santos
UNEB

A proposta de pesquisa busca registrar e transmitir para as futuras gerações da Fazenda Grande do Retiro, a história da formação do bairro, através da memória de seus mais antigos moradores, adotando a função que esta pode exercer como salienta o historiador Jacques Le Goff: “A memória, onde cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir o presente e o futuro. Devemos trabalhar de forma a que a memória coletiva sirva para a libertação e não para a servidão dos homens.” (LE GOFF, 1992, p.477). Analisarei um passado mutável que ao ser relembrado ganha novos significados e nos ajuda a repensar o presente.
Apresentarei alguns momentos importantes como o período de ocupação com loteamentos e doações de terras a partir dos anos 40 e a ligação existente entre sua história com a da cidade de Salvador e do Brasil, utilizando para tanto da análise de fontes documentais e da história oral através das memórias daqueles que viram o bairro se formar permanecendo até os dias atuais.
A História Local permite o entendimento do meio em que o aluno está inserido, conhecendo-a ele compreende a história a partir da sua realidade, construída nos mais diversos espaços e que está interligada com o que acontece no mundo. Como escreve NORONHA (2007), “a história local dá ao aluno um referencial analítico para compreender a dinâmica social. Nesse processo eles percebem que também são sujeitos que constroem a história”.
 A Fazenda Grande do Retiro é um bairro da cidade de Salvador no estado da Bahia, localizado na zona Norte de Salvador. É um morro cortado por uma rua de aproximadamente sete quilômetros que recebeu o nome do poeta e historiógrafo Alexandre José Mello Morais Filho.  Paralelo à  BR-324 e vizinho aos bairros do Alto do Peru, Pitangueiras, Bom Juá e São Caetano, a Fazenda Grande do Retiro recebeu esse nome porque realmente era uma fazenda, que pertencia ao Sr. Justino que na década de 1940 e que decidiu arrendar a sua propriedade vendendo pequenos lotes para pessoas que queriam morar na região.
O bairro apresenta-se como um local de complexas relações sociais, afirmando seu caráter histórico, desde sua origem em 1940 a 1950, como um lugar propício para abrigar a mão de obra operária vinda do interior para trabalhar em Salvador, que naquele momento, dava início a um dinâmico processo de crescimento urbano.
Ademais, habitar um local de forma “ilegal” e sem infraestrutura, exigiu que seus moradores se organizassem em prol do coletivo, a fim de exigir alguns serviços básicos, marcando uma história de lutas através das associações de moradores que diariamente conquistam melhorias para a comunidade, como energia elétrica, asfalto, saneamento básico, coleta diária de lixo, postos de saúde, bancos, área de lazer e segurança.
O Bairro comporta um comércio movimentado que gera emprego para grande parte da população, possui também três escolas estaduais de médio porte, entre elas se encontra a Escola Dom Avelar Brandão Vilela que faz parte do nosso objeto de estudo, onde iremos iniciar, desenvolver e aplicar o nosso trabalho. A escola foi fundada em 1970, com o nome de Escola Vila Natal, mas após a construção do conjunto habitacional Vila Natal, que teve a ajuda do arcebispo Dom Avelar Brandão Vilela a escola passa a receber o seu nome em sua homenagem. Recebe anualmente em seus três turnos aproximadamente 800 alunos, os quais em sua maioria moram próximo à escola.
A escolha desse objeto de pesquisa se deu a partir da vivência com os alunos da Escola Dom Avelar Brandão Vilela, há nove anos, como professora de História, seguindo um currículo eurocêntrico e percebendo a falta de interesse dos alunos por esse modelo de ensino distante e excludente que nega a participação popular deixando-os fora do processo de formação da História.
Tal temática ganhou significado à medida que os alunos relatavam em sala de aula as histórias contadas por seus avós e o desejo de verem registradas tais memórias, valorizando aqueles que detêm o conhecimento do lugar e que relembram com alegria o passado vivido e lamentam as mudanças negativas sofridas pelo bairro desde a sua geografia a falta de segurança e investimento por parte do poder público.
A fim de aproveitar esse interesse do aluno por sua história, serei a professora mediadora da busca pelo conhecimento, ajudando-o a desenvolver a intelectualidade, questionando, desafiando e orientando-o a pesquisar novas informações a respeito do meio em que está inserido se percebendo como sujeito que constrói a história e que esta não é menos importante que as do livro didático com seus conteúdos elitistas. O conhecimento do passado possibilitará, desta forma, um novo olhar sobre o bairro.
Distante de ser apenas um registro da história do bairro, a pesquisa terá uma maior relevância à medida que for sendo trabalhada em sala de aula inserida no currículo escolar das escolas do bairro, já que o seu produto final será um livresco de cunho didático-pedagógico voltado para o ensino de história e para fins diversos, já que até a presente data, não há registros de nenhum trabalho acadêmico priorizando a história da Fazenda Grande do Retiro.
O Ensino de História se depara com uma realidade angustiante, é preciso equilibrar a balança dos conteúdos a serem inseridos no currículo da disciplina, visto que a sua história na educação brasileira sempre foi pautada na história tradicional que privilegia os feitos das elites e a maioria dos alunos concluem o ensino básico sem conhecer a história de sua comunidade de seu município ou seu estado, prendendo-se apenas a História Nacional sem vínculo com a sua realidade e de seu contexto histórico local. Esse problema causa o desinteresse dos alunos que não se consideram importantes por não se sentirem inseridos nessa História ou no processo histórico a qual ela se constrói.
Na Fazenda Grande do Retiro essa história se repete, visto que a maioria dos alunos da Escola Dom Avelar Brandão Vilela desconhece a história do local em que vivem e ignoram suas origens, resultando em um ensino de História desprovido da participação e do engajamento dos alunos que se sentem desmotivados e marginalizados diante do contexto e processo de construção do conhecimento histórico.
Dessa forma, não desenvolvem um sentimento de pertencimento a História, não se sentem sujeitos dela, reproduzindo diariamente uma visão distorcida sobre a História, privilegiando como protagonistas da História apenas os coronéis, reis, rainhas e grandes autoridades.
A falta de registro a respeito da história do bairro torna-se um obstáculo no desenvolvimento de um ensino de história local nas escolas da Fazenda Grande. Fazendo-se necessário o resgate das memórias orais dos seus antigos moradores, principalmente daqueles envolvidos com o desenvolvimento do lugar através de reivindicações que trouxeram melhorias para a comunidade, a exemplo da rádio comunitária e das duas associações de moradores a AMUFG ( Associação de Moradores Unidos da Fazenda Grande) e a AMECC Associação de Moradores Educativa Cultural e Comunitária).
Ao colocar os alunos em contato com os moradores mais antigos do bairro, detentores do conhecimento da história do lugar, estaremos lhes proporcionando a oportunidade de não apenas conhecer o passado, mas a possibilidade de comparar o envolvimento e comprometimento dos mais velhos com as lutas sociais em prol de benefícios coletivos, com a apatia das novas gerações, que desconhecem sua própria cultura, fator essencial para fortalecer o sentimento de pertença do lugar.

Referências bibliográficas

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BARBOSA, Vilma de Lurdes. Ensino de História Local: Redescobrindo Sentidos. Saeculum – Revista de História. João Pessoa: jul/dez, 2006.
BITTENCOURT, Circe Maria Fernandes. Ensino de História: Fundamentos e Métodos. Editora Cortez: São Paulo, 2009.
BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: lembranças de velhos. 15 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
FONSECA, Selva Guimarães. Didática e Prática de Ensino de História: Experiências, Reflexões e Aprendizados. Editora Papirus: São Paulo, 2003. Coleção Magistério: Formação e Trabalho.
HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Centauro, 2006.
KARNAL, Leonardo (org.). História na Sala de Aula: Conceitos, Práticas e Propostas. Editora Contexto: São Paulo, 2010.
LE GOFF, Jacques. Memória. In: História e Memória. Campinas: Ed. UNICAMP, 1992.
MONTENEGRO, Ana Maria da Costa. Ensino de História: Das Dificuldades e Possibilidades de um Fazer. In. DAIVES, N. (org.) Para Além dos Conteúdos no Ensino de História. Niterói: Eduff, 2000.
NORONHA, Isabelle de Luna Alencar. Livro Didático e Ensino de História Local no Ensino Fundamental: Associação Nacional de História - ANPUH XXIV. Simpósio Nacional de História, 2007.
RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas: Editora da Unicamp, 2007.
RÜSEN, Jörn. Aprendizagem histórica: fundamentos e paradigmas. Curitiba: W.A. Editores, 2012.
SAMUEL, Raphael. História Local e História Oral. In: Revista Brasileira de História. Pp. 219-242. V. 9, n.º 19, set. 1989 / fev. 1990.
SCHMIDT, Maria Auxiliadora. CAINELLI, Marlene. Ensinar História. 2º ed. São Paulo: Editora Scipione, 2009. Coleção Pensamento e Ação em Sala de aula.


4 comentários:

  1. FABIANO MOREIRA DA SILVA4 de abril de 2017 às 13:31

    Olá professora Ana Paulo, bela iniciativa. Eu já tive a oportunidade de lidar com o tema história e memória, mas tratando do bairro do Nordeste de Amaralina em Salvador. Foi uma experiência bastante gratificante e realmente provocou o interesse do aluno ao verificar que a sua localidade era discutida em sala de aula. Eu gostaria de saber quais outros materiais ou estratégias, além da história oral, você pretende levar para sala de aula para tratar da história do bairro ? Sucesso no seu projeto. FABIANO MOREIRA DA SILVA

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  2. Olá professora Ana Paula, primeiramente gostaria de lhe parabenizar pelo seu trabalho.
    Seu trabalho me ajudou observar como o trabalho com a memória se trata de uma importante categoria de análise, esta que nos permite conhecer um pouco mais a história dos lugares. Pois atualmente tenho trabalhado com o bairro Francisco Coelho popularmente conhecido por Cabelo Seco, este visto como bairro de maioria negra, e essa categoria será de grande relevância dentro desta pesquisa.

    Att: Juliana Barbosa Sindeaux (UNIFESPA- Ciências Sociais)

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  3. Boa tarde, além da Fazenda Grande do Retiro também será realizados trabalhos com outras localidades? E como será feita a ponte entre os alunos e os moradores antigos do bairro?

    Anderson Oliveira Cruz Santos

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  4. Layana Márcia Carvalho Pereira7 de abril de 2017 às 05:18

    Bom dia professora. Muito importante sua iniciativa, é muito triste nesta sociedade pós - moderna é a ausência da memoria da população pela história de seu povo. Em minha cidade toda a História está se perdendo grandes casarões. Mais graças ao trabalho e luta de um povo que hoje está tendo uma reforma de uma casa de escravo que estava sendo deteriorada pelo tempo. A população daquele povoado brigou e conseguiu a tão sonhada reforma da casa. Sei a importância da história oral.Qual a maneira mais fácil de se trabalhar com os alunos de hoje? Layana Márcia.

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