O ENSINO DE TRABALHOS MANUAIS NA EDUCAÇÃO PRIMÁRIA NO ESTADO NOVO EM PERNAMBUCO (1937-1945)
Aline Cristina Pereira de Araújo Ramos
Doutoranda em Educação PPGE/UFPE
A partir do aparato documental composto pelas Revistas de Educação publicadas sobre a interventoria de Agamenon Magalhães; os Programas de Educação Primária, 1938 e 1939; os Relatórios de Governo, 1939, 1940 e 1942, busca-se: identificar e analisar as concepções do governo Agamenon Magalhães, 1937-1945, através da cadeira de trabalhos manuais, na elaboração de uma educação para formar a mulher segundo os princípios defendidos pelo regime varguista.
Construído através de um golpe político-militar e, portanto, carente de legitimidade, o regime inaugurado por Vargas em 1930, procurou disseminar por toda a sociedade uma ideologia que afirmava a necessidade histórica do novo governo. O regime varguista, especialmente após 1937, implementou uma política sistemática e coordenada da propaganda política. Foi basilar para o Estado a criação de mecanismos para a produção e difusão, por toda a sociedade, de sua concepção de mundo, de sua doutrina, de sua verdade.
Como nos esclarece Dulce Pandolfi (1999), em 10 de novembro de 1937, foi deflagrado um Golpe de Estado por Getúlio Vargas, então presidente do Brasil, desde a Revolução de 30, o golpe deu origem ao Estado Novo. Naquele dia, alegando que a Constituição promulgada em 1934 estava “antedatada em relação ao espírito do tempo”, Vargas apresentou à Nação nova carta constitucional, baseada na centralização política, no intervencionismo estatal e num modelo antiliberal de organização da sociedade. Poucas fases da história do Brasil produziram um legado tão extenso e duradouro como o Estado Novo. Em função das transformações ocorridas no país, o período tornou-se referência obrigatória quando se trata de refletir sobre estruturas, atores e instituições presentes no Brasil de hoje. Na realidade, durante o Estado Novo, Getúlio Vargas consolidou propostas em pauta desde outubro de 1930, quando, pelas armas, assumiu a presidência da República. Cf: PANDOLFI, Dulce (PANDOLFI, 1999).
Em 25 de novembro Agamenon Magalhães foi nomeado, pelo presidente Getúlio Vargas, Interventor Federal de Pernambuco. Ele assumiu o cargo em 3 de dezembro de 1937, foi um dos homens de confiança de Vargas, um, dos principais artífices do Estado Novo e contou na sua administração com efetiva colaboração do poder central (PANDOLFI, 1984).
Agamenon Magalhães, juntamente com Francisco Campos, Gustavo Capanema, Benedito Valadares, Marcondes Filhos, Simões Lopes, Salgado Filho e Góes Monteiro, é considerado um dos construtores do Estado Novo.
O governo central considerava a interventoria Pernambucana um exemplo bem sucedido de implantação do modelo estadonovista e o governo de Agamenon justificava suas ações em função de objetivo maior a ser atingido: a paz e a harmonia social. A Educação foi um setores acionados pela interventoria de Agamenon Magalhães na busca de legitimação e doutrinação para o regime implantado.
Nosso estudo é uma confluência entre História da Educação e História Política. Nesse estudo não procuramos compreender a recepção das práticas educacionais, mas sim como foram utilizadas pelo governo de Agamenon Magalhães, pari pasu ao que acontecia neste sentido dentro do contexto nacional. Dialogamos no nosso texto com historiografia do Estado Novo Brasileiro e a Historiografia da Educação.
Ao nos debruçar-se sobre as práticas educativas da Interventoria, foi de perceber como esse governo pensou a educação para esse grupo social. No contexto do Estado Novo, emergiu um discurso em defesa do uso das práticas educacionais como meio de criar a perfeita dona-de-casa, a companheira que cooperaria com Homem Novo.
Nosso estudo utilizou, como fontes primárias, os documentos do governo, seus discursos, seus relatórios, seus decretos, etc. Tal aparato não nos autoriza a falar pelas mulheres que vivenciaram o regime, apenas nos possibilita analisar as intenções do governo e suas expectativas com relação aos usos do ensino em prol da formação de um determinado tipo de mulher, por ele considerado ideal.
Nos Programas de Ensino Primário, de 1939, houve a especificação de temas a serem ministrados exclusivamente a cada gênero. E no programa de Trabalhos Manuais,identificou-se uma seção especial para as meninas. Essa disciplina era ministrada no ano preliminar– o primeiro ano da aluna na escola primária, na qual ela, tinha o primeiro contato com o mundo escolar, mais o 1º, 2º, 3º e 4º ano do Ensino Primário propriamente dito. No ano preliminar não havia diferença entre os conteúdos, tanto os meninos quanto meninas deviam aprender: a dobrar e cortar papéis; o uso da tesoura através de recorte de gravuras e sua colagem; dobrar e trançar serpentina; a confecção de álbuns; exercícios e jogos para adestramento dos dedos; modelagem em argila de figuras geométricas e os cuidados para a conservação e uso dos uniformes, livros e material escolar (PERNAMBUCO , 1938)
A partir dos primeiros assuntos passavam a ser direcionados aos diferentes gêneros. Às alunas caberia aprender trabalhos com agulha, pontos cruzados em diferentes tecidos, ponto russo e aplicações em tecidos. No segundo ano seus conhecimentos seriam completados com o aprendizado de alinhamentos, bainhas, o uso da máquina de costura, a criação de ornamentos para casa e tapeçarias.
O terceiro ano deveria proporcionar às alunas o aprendizado da confecção de roupas para crianças, bordados mais complexos (como pontos de casa de abelhas e variações). No quarto ano elas teriam seus conhecimentos finalizados com o aprendizado da confecção de roupas de adultos, pinturas em tecido, confecção de rendas, crochê e tricô. Ao final desse ciclo as estudantes deveriam estar preparadas para serem perfeitas donas-de-casa e, quando necessário, auxiliarem os maridos, ou quando fossem sós (mães solteiras, viúvas) manterem seus filhos e lares.
A política educacional do Governo de Agamenon Magalhães seguiu as orientações federais no que se remetia à diferenciação entre a educação masculina e feminina. E buscando demonstrar a necessidade de uma educação direcionada às mulheres, procurou não apenas prepará-las para as tarefas domésticas, mas educá-las para estabelecerem e conservarem suas famílias. Já aos homens caberia uma educação para o ambiente de trabalho, fora do lar, com intuito de proverem a sustento das suas futuras famílias.
Ao explanarmos a respeito da construção dessa disciplina, destaca-se que ocorreu uma transformação de nomenclatura entre 1938 a 1945. Num primeiro momento chamou-se Trabalhos Manuais, para em 1941 transformar-se na cadeira de Pré-Orientação Profissional, sem contudo, ter tido alterados os seus conteúdos.. No Programa de Ensino Primário de 1939, defendeu-se que todo o ensino primário deveria ser norteado segundo os princípios defendidos pela pré-orientação profissional.
Uma das principais estratégias da educação para a mulher pela Interventoria de Agamenon Magalhães foi um programa diferenciado na disciplina de Trabalhos Manuais no ensino primário. Os programas de ensino primário traziam especificações de temas a serem ministrados exclusivamente para as meninas:: corte e costura; diversos bordados; criação de ornamentos para a casa; tapeçarias; entre outros.
Essa educação também estava relacionada com a higienização e organização do lar. Os trabalhos manuais incluíam em seus ensinamentos a produção de utensílios domésticos e regras para a limpeza das residências, o que nos pareceu uma clara tentativa do governo em propagar junto àquelas alunas a necessidade de higienização da vida doméstica. Além disso, os produtos derivados daquela modalidade de ensino também poderiam ser comercializados, ajudando no aumento da renda das famílias das educandas. Essas estratégias tinham como finalidade preparar essas meninas para tornarem-se perfeitas donas-de-casa e, quando necessário auxiliarem seus maridos, ou quando solteiras e viúvas mantenedoras de seus lares e filhos.
PERNAMBUCO. Secretário do Interior. Departamento de Educação. Programas de Educação Primária. Recife: Imprensa Oficial, 1938, p. 51-55, APEJE, Recife- PE.
PANDOLFI, Dulce C. Pernambuco de Agamenon Magalhães: consolidação e crise de uma elite política. Recife: Fundação Joaquim Nabuco: Editora Massangana, 1984.
PANDOLFI, Dulce (Org.). Repensando o Estado Novo. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1999.
Olá Aline!? Bom dia.
ResponderExcluirLendo seu texto, que por sinal, de uma riqueza muito grande, em termos de história da educação brasileira, gostaria de saber se no decurso de sua pesquisa, você encontrou alguma coisa sobre a fundação dos grupos escolares? nomeclatura tão presente ainda na educação básica aqui em Alagoas, onde sou professor de História.
Luiz Santos Silva, Professor de História-AL
Boa noite Luiz, sim encontrei. Até porque os grupos escolares só criados no início do século XX, tendo grande presença no Estado Novo como modelo educacional.
ExcluirExplico isso melhor na minha dissertação.
Muito obrigado pela resposta.
ExcluirOlá Aline, bom dia.
ResponderExcluirmuito bom o seu artigo. Parabéns! Gostaria de saber se nas fontes pesquisadas, você teve contato com diários de classe que tratassem com trabalhos manuais?
Att.
Paula Lorena Cavalcante Albano da Cruz.
Boa noite Paula, trabalhei em minhas pesquisas com documentos governamentais. Nisso só tinha o ponto de vista oficial. Nunca tive acesso a aDiarios, acho que seria de uma riqueza no caminhar da pesquisa....
ResponderExcluirVocê já teve algum acesso a esse tipo de documentação?
Bom dia Aline,
Excluirsim. trabalhei com diários na minha monografia e dissertação.
Att.
Paula Lorena CAvalcante Albano da CRuz
Paula, boa noite. Diários de qual período? Que incrível!!!! Poderia colocar o link de sua dissertação? Gostaria muito de ler
ExcluirPrezada Aline, parabéns pelo trabalho, que se constitui num importante recorte histórico da nossa sociedade ainda patriarcalista.
ResponderExcluirMuito obrigada Ana Carolina :)
ExcluirOlá, Aline. Amei a sua pesquisa, sobretudo porque o Estado Novo também é objeto de meus estudos. Fiz um recorte de seu texto para questioná-la: " Num primeiro momento chamou-se Trabalhos Manuais, para em 1941 transformar-se na cadeira de Pré-Orientação Profissional" Qual foi o objetivo desta mudança conceitual?
ResponderExcluir